Ouguela (Alentejo, Portugal) em baixo; Alburquerque (Badajoz, Espanha) ao fundo.

quinta-feira, 10 de janeiro de 2013

À mesa (Roby Amorim)



À MESA

Já ninguém tem regras nem horas para estar à mesa, dizem os mais velhos. Pelo menos no que respeita à terminologia estarão cheios de razão.

Começava-se o dia com a parva (a pequena refeição) ou desjejum, o mata-bicho, hoje o pequeno almoço.

O almoço vinha um pouco mais tarde, mas ainda à pressa, ao calhar da conveniência dos horários de cada um. A palavra não é árabe, como pode julgar-se pelo al inicial. É romana: ad-morsus, ou seja, à dentada, rapidamente para ir à vida.

A merenda fazia-se no pino do calor como um intervalo indispensável, ao meio-dia (meridie) e só no regresso a casa a familia acabava por se juntar na ceia (do grego koene, conjunto). Os simpósios que hoje reúnem professores, cientistas, etc. não passavam de uma patuscada, de pretexto para mais uns copos, pois simpósio significa beber em conjunto.

Na Idade Média, a mesa era posta pela simples razão de que não havia casa de jantar e comia-se ao gosto do momento, aqui ou ali.

A mesa (ou mensa, como se diz nalguns sítios do Alentejo mantendo exactamente o termo latino) era armada (posta) sobre pernas em xis, como ainda se faz com os tabuleiros dos vendedores ambulantes.

Antes de se levantar a mesa, tirava-se a toalha, já bem suja porque os comensais ali tinham limpo as mãos (embora fosse de regra não meter na comida mais do que as pontas dos dedos, que também podiam limpar-se ao pêlo dos cães que solicitavam um osso sobrante). O que vinha depois, as frutas e os doces era comido directamente sobre a mesa. Daí a sobremesa.

Comia-se com colher ou à mão de um recipiente comum e daí cada um meter a sua colherada.

O garfo só vai aparecer no século XVI. Objecto insólito, cuja primeira utilidade, então com um só dente, fora a de escrever as missivas romanas sobre tabuinhas de cera. Era o graphium com que se grafava, ou se escrevia.

Garfo, que, no passado, se apelidara stylum, o instrumento com que se grafavam os caracteres cuneiformes nas Babilónias e Caldeias. Cada qual com o seu estilo, e os cirurgiões com o seu estilete para fazerem talhos nos males que nos afligem, e daí, talhante, o que corta a carne que comemos, cada dia mais doloroso... E comemos, claro, com os nossos talheres.

Roby Amorim, Elucidário de conhecimentos quase inúteis    



Nota. Explicação da expressão idiomática meter a sua colherada:

Meter a colherada (ou a colher). Quer dizer meter-se em assuntos ou conversas alheias. Com uma ou outra leve diferença, usa-se também «meter o bedelho», «meter o bico», «meter-se onde não é chamado», «meter a foice em seara alheia», «meter o nariz (onde não é chamado)», «meter-se na vida alheia», etc., etc.
(Ciberdúvidas)