Ouguela (Alentejo, Portugal) em baixo; Alburquerque (Badajoz, Espanha) ao fundo.
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quarta-feira, 15 de janeiro de 2020

Madassa – o menino que não conseguia aprender a ler

Fotografia de José Carlos Costa

Madassa – o menino que não conseguia aprender a ler

Madassa

Madassa não sabia ler nem escrever.
Madassa tinha a idade que as crianças têm quando sabem ler e escrever.
Mas Madassa não sabia ler nem escrever.

Na cabeça de Madassa não havia lugar para palavras.
Na cabeça de Madassa habitava apenas o medo, escuro e negro, causado pelos barulhos da guerra, e pelos mortos, muitos mortos.

Na cabeça de Madassa vivia uma raiva imensa cheia de porquês.
Como se as perguntas fossem garras dilacerantes.
Na cabeça de Madassa pairava um nevoeiro de tristeza.
Tão espesso que ele não conseguia lembrar-se sequer da cara do irmão ou da irmã, cujo paradeiro ninguém conhecia.

Havia dias em que, na cabeça de Madassa morava a mesma fome que lhe enchia o ventre. A negrura do medo, as garras da raiva, o nevoeiro da tristeza – e, em certos dias, a fome – ocupavam toda a cabeça de Madassa.
Na cabeça de Madassa não havia lugar para as palavras.

A professora já não sabia o que fazer para ajudar Madassa.
Quanto tinha tempo, lia-lhe histórias que ele sozinho não conseguia ler.
Lia-lhe a história do Pequeno Polegar, que tivera tanto medo na floresta.
E o medo do Polegarzinho passeava pela cabeça de Madassa.
Lia-lhe a história de Martinho , que estava sempre irritado.
E a irritação do rapaz era igual à que existia na cabeça de Madassa.
Lia-lhe a história da Menina dos Fósforos.
E a tristeza da Menina chorava na cabeça de Madassa.
A professora contava-lhe também a história de Pedro e a Lua, do menino que queria fazer florir a terra inteira com plumas de pássaro.
E as plumas dançavam na cabeça de Madassa.

E, entretanto, o que acontecia na cabeça de Madassa?
O medo do Polegarzinho deixava palavras para exprimir o medo.
A cólera de Martinho deixava palavras para exprimir a cólera.
A tristeza da Menina dos Fósforos deixava palavras para exprimir a tristeza.
A dança das palavras de Pedro e a Lua deixava palavras que davam vontade de dançar.

Certa manhã, as palavras, fortemente agitadas, não quiseram ficar na cabeça de Madassa.
Então, o menino pegou num caderno, numa caneta, e, embora desajeitadamente, como uma criança que aprende a andar, escreveu:

Madassa medo
Madassa cólera
Madassa tristeza

Madassa por entre as ervas
Madassa ao vento
Madassa na água

Madassa cinzento preto azul
Madassa vermelho amarelo preto
Madassa cinzento amarelo verde

Madassa galo tigre
Madassa sol

─ Um poema! ─ exclamou a professora. ─ Escreveste um poema!

Então escrever é isto!
Pegar nas palavras das histórias e transformá-las nas palavras de Madassa.
Mas é preciso ler muitas histórias para ter muitas palavras.

Madassa começou a ler.
E a escrever também.
Quanto mais lia, mais escrevia.
Quanto mais escrevia, mais vontade tinha de ler.
Era um círculo mágico.

Madassa não sabia ler nem escrever.
Mas enchia agora cadernos e mais cadernos.
Talvez um dia escrevesse um livro.

Madassa escritor.


Michel Séonnet
Madassa
Paris, Ed. Sarcabane, 2003
(Tradução e adaptação)


(Lido em Contadores de histórias)




segunda-feira, 13 de janeiro de 2020

"A primeira vez que andei de avião"



Muitos de vocês já passaram por esta experiência. Será tudo conhecido...


A primeira vez que andei de avião

Quando cheguei ao aeroporto estava muito nervoso. Fui comer uma sandes, isto à hora de almoço. Depois fui fazer o check-in, com o meu pai, a minha mãe e os meus irmãos: Daniel e Gil. De seguida fomos a uma espécie de centro comercial. E fomos andando para uma sala de espera. Quando chamaram os passageiros para o nosso voo nós dirigimo-nos a uma caixa, depois fomos de autocarro até o avião. Aí começava a sentir-me muito nervoso. Quando me sentei, foi ao lado do meu pai e da minha mãe. Dei a mão à minha mãe e o avião começou a levantar. Deu-me um friozinho na barriga mas passou, quando já lá estávamos no alto não se sentia nada. Li um bocadinho e passou-se bem, depois veio o lanche, era uma sandes de peru com queijo e a bebida era compal. Depois sobrevoamos Londres. E indicaram que íamos aterrar, pois porque havia sempre indicações. Quando aterramos o meu pai gritou e toda a gente olhou para ele, apesar de ter sido uma boa aterragem. O voo foi demais, adorei!!!

Duarte Júlio

(Blog Maravilha)


quinta-feira, 9 de janeiro de 2020

“Numa peixaria no Mercado Municipal de Santos...”


O que acham desta história que encontrei por acaso no blogue Tudo me interessa e nada me prende, de Sónia FS?

quinta-feira, 14 de julho de 2016
Numa peixaria no Mercado Municipal de Santos...

Nunca façam o que se segue com seus filhos. NUNCA!!!

Eu devia ter 3 ou 4 anos, tinha a mania de descer do carro junto com meu pai, toda vez que ele parava para ir a uma farmácia, mercado, enfim, qualquer lugar.

Um dia parou numa peixaria do Mercado de Santos, desceu do carro entrou na peixaria, perguntou alguma coisa e logo saiu pela entrada lateral. As duas entradas eram divididas por uma coluna de alvenaria. Eu corri atrás e quando vi que ele saiu pela outra porta, tentei alcançá-lo mas ele, rapidamente entrou no carro, deu a partida e foi embora. Eu fiquei na calçada gritando como uma desesperada e até hoje me lembro da cena de horror. Achei que nunca mais ia ver meus pais. Os lojistas todos correram à porta de seu comércio, assustados com o que estava acontecendo e gritavam para meu pai voltar. Ele deu marcha-a-ré e voltou para me pegar. Disse que foi uma lição para eu aprender a ficar no carro quando ele descia para ir a algum lugar.

Com isso ele deixou de ser amado por mim. A partir daquele evento de horror, passei a ter dois sentimentos por ele: medo e respeito. O segundo era apenas consequência do primeiro.

Não sei se foi a partir daquele dia, nunca mais confiei em homem algum.




segunda-feira, 16 de dezembro de 2019

Como passa um rapaz do 7º ano os seus os tempos livres



Vejamos o que nos conta um aluno do 7º ano português do Agrupamento de Escolas D. Lourenço Vicente a respeito de como é que ele passa os tempos livre; ou passava, visto ele ter escrito estas palavras há 7 anos.

Tempos Livres

Um dos meus tempos preferidos é jogar futebol, mas não sei porquê! Acho que é pela intensidade do jogo, da pressão, da maravilha que é este desporto, dos jogadores ou simplesmente porque sim.

Pode ter altos e baixos, apesar disso continuo a gostar do futebol.

Outro dos meus passatempos é andar de bicicleta, não aquele modo de andar de bicicleta que envolve truques, até pelo contrário, eu gosto de fazer BTT calmamente e andar pelas estradas a conhecer o desconhecido com amigos e familiares.

Também gosto de ir ao computador do mesmo modo que quase todas as crianças da minha idade. Normalmente, vou lá por causa de quê? Dos jogos, claro está. Jogo quase tudo desde jogos online a jogos de tabuleiro (mas no computador, lá está), RPG a First-Player-Shooter (FPS e muitos outros). Também vou ao computador para ir ver cifras, isto é, ver que notas de viola toco numa música e é daí que surge o meu outro passatempo: tocar viola.

Eu gosto de tocar viola por uma simples razão: pela paixão. Quando agarro aquela viola parece que entro num mundo de fantasia, que não existe mais do que eu, aquela viola e a música que sai de lá.

Também vejo, claro está, alguma televisão (e com alguma eu quero dizer muita...), mas é só mesmo quando não tenho nada para fazer.

Pronto, e isto foram as minhas atividades favoritas.

Francisco Marques


Blog Arquivo. Um espaço de memórias (25-01-2012)





quarta-feira, 11 de dezembro de 2019

O primo pobre (Armando Caldas)


Armando Caldas é engenheiro zootécnico de profissão e um grande amador da fotografia de natureza. Partindo desta fotografia que ele tirou, escreveu o seguinte texto autobiográfico. Vale a pena ler.


O primo pobre

Todos temos um primo pobre... ou somos o primo pobre. Na minha família, eu e os meus 8 irmãos, éramos os primos pobres... por óbvias questões numéricas!

Ser os primos pobres, sobretudo numa família numerosa, é na realidade uma alegria... recordo da infância as brincadeiras que tínhamos em conjunto, as alegrias do Natal, o tão esperado dia de aniversário em que podíamos escolher a tão rara sobremesa. É verdade, que por vezes essa sobremesa tinha de ser substituída por uma tigela de marmelada virada ao contrário e com fósforos a servir de velas. Mas ainda sinto o sabor dessa marmelada na boca... e a roupa que eu usava na maior parte das vezes vinha toda coçada porque já tinha passado pelos irmãos mais velhos. Felizmente os primos ricos mandavam-me a roupa em muito melhores condições!

A brincadeira que guardo na memória como mais ilustrativa do folclórico de uma família grande era o "assalto ao castelo"! Um colchão era colocado em pé no lugar da porta de um quarto... uma equipa de 4 ou 5 ficava de um lado e outra ficava do outro (os vizinhos estavam sempre enfiados em nossa casa, porque lá é que se divertiam). Uma tentava atravessar a porta, por cima, por baixo ou pelos lados e a outra equipa tentava evitar o assalto!

Nessas brincadeiras nunca ninguém se magoava e nunca vi dois dos meus irmãos "à bulha" ou a deixarem de se falar... quanto mais não fosse porque um terceiro interviria rapidamente.

Hoje não há famílias numerosas desta dimensão ou são raríssimas... eu considero que foi a maior riqueza que tive na vida.

Tudo isto veio a propósito porque o serzino é o primo pobre do canário... vive em liberdade, respira ar puro e é feliz.

Armando Caldas



Na fotografia: Chamariz, Serzino, Milheirinha..., Macho (Serinus serinus)

Vila Real, Portugal. (23/02/09)

*************************

De serzino, lemos o seguinte na Infopédia. Reparem na quantidade de nomes do passarinho!

ORNITOLOGIA (Serinus serinus) pequeno pássaro cantador, de bico curto e plumagem amarela com riscas acastanhadas ou esverdeadas, pertencente à família dos Fringilídeos, frequente em Portugal e também conhecido por amarelinha, azegrino, milheira, milheirinha, cerejinho, cerezinho, cerezina, cerezino, sereno, serino, bico-curto, riscada, milheiriça, chamariz, serezino, etc.




quarta-feira, 4 de dezembro de 2019

A menina e o pássaro encantado (Rubem Alves)


Ilustração em Menina de Engenho Arte & Dessign


A menina e o pássaro encantado

Era uma vez uma menina que tinha um pássaro como seu melhor amigo.
Ele era um pássaro diferente de todos os demais: era encantado.
Os pássaros comuns, se a porta da gaiola ficar aberta, vão-se embora para nunca mais voltar. Mas o pássaro da menina voava livre e vinha quando sentia saudades… As suas penas também eram diferentes. Mudavam de cor. Eram sempre pintadas pelas cores dos lugares estranhos e longínquos por onde voava. Certa vez voltou totalmente branco, cauda enorme de plumas fofas como o algodão…
— Menina, eu venho das montanhas frias e cobertas de neve, tudo maravilhosamente branco e puro, brilhando sob a luz da lua, nada se ouvindo a não ser o barulho do vento que faz estalar o gelo que cobre os galhos das árvores. Trouxe, nas minhas penas, um pouco do encanto que vi, como presente para ti…
E, assim, ele começava a cantar as canções e as histórias daquele mundo que a menina nunca vira. Até que ela adormecia, e sonhava que voava nas asas do pássaro.
Outra vez voltou vermelho como o fogo, penacho dourado na cabeça.
— Venho de uma terra queimada pela seca, terra quente e sem água, onde os grandes, os pequenos e os bichos sofrem a tristeza do sol que não se apaga. As minhas penas ficaram como aquele sol, e eu trago as canções tristes daqueles que gostariam de ouvir o barulho das cachoeiras e ver a beleza dos campos verdes.
E de novo começavam as histórias. A menina amava aquele pássaro e podia ouvi-lo sem parar, dia após dia. E o pássaro amava a menina, e por isto voltava sempre.
Mas chegava a hora da tristeza.
— Tenho de ir — dizia.
— Por favor, não vás. Fico tão triste. Terei saudades. E vou chorar…— E a menina fazia beicinho…
— Eu também terei saudades — dizia o pássaro. — Eu também vou chorar. Mas vou contar-te um segredo: as plantas precisam da água, nós precisamos do ar, os peixes precisam dos rios… E o meu encanto precisa da saudade. É aquela tristeza, na espera do regresso, que faz com que as minhas penas fiquem bonitas. Se eu não for, não haverá saudade. Eu deixarei de ser um pássaro encantado. E tu deixarás de me amar.
Assim, ele partiu. A menina, sozinha, chorava à noite de tristeza, imaginando se o pássaro voltaria. E foi numa dessas noites que ela teve uma ideia malvada: “Se eu o prender numa gaiola, ele nunca mais partirá. Será meu para sempre. Não mais terei saudades. E ficarei feliz…”
Com estes pensamentos, comprou uma linda gaiola, de prata, própria para um pássaro que se ama muito. E ficou à espera. Ele chegou finalmente, maravilhoso nas suas novas cores, com histórias diferentes para contar. Cansado da viagem, adormeceu. Foi então que a menina, cuidadosamente, para que ele não acordasse, o prendeu na gaiola, para que ele nunca mais a abandonasse. E adormeceu feliz.
Acordou de madrugada, com um gemido do pássaro…
— Ah! menina… O que é que fizeste? Quebrou-se o encanto. As minhas penas ficarão feias e eu esquecer-me-ei das histórias… Sem a saudade, o amor ir-se-á embora…
A menina não acreditou. Pensou que ele acabaria por se acostumar. Mas não foi isto que aconteceu. O tempo ia passando, e o pássaro ficando diferente. Caíram as plumas e o penacho. Os vermelhos, os verdes e os azuis das penas transformaram-se num cinzento triste. E veio o silêncio: deixou de cantar.
Também a menina se entristeceu. Não, aquele não era o pássaro que ela amava. E de noite ela chorava, pensando naquilo que havia feito ao seu amigo…
Até que não aguentou mais.
Abriu a porta da gaiola.
— Podes ir, pássaro. Volta quando quiseres…
— Obrigado, menina. Tenho de partir. E preciso de partir para que a saudade chegue e eu tenha vontade de voltar. Longe, na saudade, muitas coisas boas começam a crescer dentro de nós. Sempre que ficares com saudade, eu ficarei mais bonito. Sempre que eu ficar com saudade, tu ficarás mais bonita. E enfeitar-te-ás, para me esperar…
E partiu. Voou que voou, para lugares distantes. A menina contava os dias, e a cada dia que passava a saudade crescia.
— Que bom — pensava ela — o meu pássaro está a ficar encantado de novo…
E ela ia ao guarda-roupa, escolher os vestidos, e penteava os cabelos e colocava uma flor na jarra.
— Nunca se sabe. Pode ser que ele volte hoje…
Sem que ela se apercebesse, o mundo inteiro foi ficando encantado, como o pássaro. Porque ele deveria estar a voar de qualquer lado e de qualquer lado haveria de voltar. Ah!
Mundo maravilhoso, que guarda em algum lugar secreto o pássaro encantado que se ama…
E foi assim que ela, cada noite, ia para a cama, triste de saudade, mas feliz com o pensamento: “Quem sabe se ele voltará amanhã….”
E assim dormia e sonhava com a alegria do reencontro.

Rubem Alves

(Lido em Contadores de histórias)

 
(Ilustração em Menina de Engenho Arte & Dessign)



terça-feira, 3 de dezembro de 2019

Aqueles tempos da escola primária...

Escola Primária de Ribeira de Alte


É claro que para vocês aqueles tempos ficam muito mais perto do que para o autor deste texto.


E quando eu andava na escola primária?!

Depois de acordar brindei o exterior do meu corpo com um banho quente.
De seguida brindei o interior do meu corpo com uns belos cereais com leite.
Seguiu-se a viagem até à fisioterapia, que agora já só acontece 3 vezes por semana. Bom, não é?!
Mas isso agora não interessa nada.
Sou vizinho da minha ex-escola primária, que já foi minha. Foi minha 4 anos.
Passo por lá todos os dias. Hoje não foi excepção.
As aulas começaram hoje. Parece-me.
Ao passar vi por lá a criançada. Estavam no tão afamado intervalo.
Depois de ver aquilo segui em direcção ao que tinha a fazer.
O meu corpo conduzia o carro e a minha mente conduzia recordações.
E quando eu andava na escola primária?!
Passei pela mão dos duros.
Professor Nogueira. Professora Maria Angelina. Professora Alcina. Professora Rosa.
Eu faço parte dos galácticos daquela escola.
A mim deram-me aulas os que deram aulas aos meus pais.
Mesmo sendo ensinado pelo núcleo duro não fui o aluno timido, calado e aterrorizado.
Nem pensar.
Em todos as minhas folhas de avalição, naquela parte do comportamento tenho: "distraído e conversador".
Eu não era fácil de gerir.
Hoje? Hoje sou pior. Em ponto grande, mas pior.
Mas o "distraído e conversador" passou com distinção por aquela escola. Sem chumbos.
Já não me lembro como foi o meu último dia dentro daquelas paredes.
Já o primeiro nunca me esquecerei.
Sete reguadas nas mãos. SETE!!!
O Eduardo teve a ideia e eu a estupidez de alinhar.
Passou-se assim:
"Oh Cris, Cris!? Vamos jogar às espadas?"
"Como?"
"Com os lápis"
O brilho nos meus olhos e o sim às reguadas na minha boca.
"Vamos!!!"
E toca a virar para trás, para vencer o duelo dos lápis.
Quem venceu? Foi o Professor Nogueira. Deu oito reguadas no Eduardo e sete aqui no menino.
Desde esse dia, em 1989, que nunca mais joguei às espadas.
E a tabuada? Porra, tinhamos que a saber todinha.
Os rios. As serras. Aquele Meio Fisico consumia-me.
Sentavamo-nos em cima do pão antes do intervalo.
Porquê?! Não sei. Talvez porque alguém disse que aquilo era fixe.
O intervalo era mítico. A barra forte. A macaca. Os elásticos. O futebol.
E o leite? Tão bem que nos sabia aquele leite simples.
Depois tinhamos o dia do fluor. Porra, aquilo até ardia na boca.
Mas giro era o dia das fotografias.
Nós a chegar carregados. Com o sono às costas. O cabelo a olhar para o ar.
"Dia de fotografias".
Azáfama total.
Lamber a mão para tombar o cabelo teimoso que não tombava.
Ajeitar a t-shirt do Vitinho.
Enfim, era como que uma preparação para um verdadeiro desfile de moda.
As festas de fim de período foram, todas elas, muito melhores que o último Rock in Rio.
Tudo era melhor. Mas tudo mesmo.
A caminho de casa havia sempre tempo para um assalto às cerejas e às maçãs do Terranão.
Depois era a fuga ao cão. Lasco, o terrível pastor alemão.
Ninguém nos ia buscar à escola.
Não havia sinais de trânsito, nem passadeiras.
Havia uma corrida louca para casa.
Despachar os deveres e arrancar na BMX.
Bons tempos esses.
Tinhamos direito a um pacote de leite por intervalo.
Um dia, na 4ª classe, a Professora Rosa deu-nos liberdade em relação ao leite.
Poderiamos beber os pacotes que quisessemos.
A parvoíce substituiu a sede e na minha mente surgiu a pergunta: "porquê bebe-los quando posso rebentá-los?"
E assim foi.
Resultado: o recinto do intervalo ficou completamente cheio de pacotes de leite rebentados.
Eu tive a coragem de rebentar o primeiro. Os meus amigos tiveram a burrice de me seguir o exemplo.
Claro está que a Professora Rosa viu e mandou-me limpar tudo. Tuuudoooo!!
Tive que denunciar mais malta. Teve mesmo que ser. Só assim tive ajuda.
E aquele dia em que chegamos à escola e nos deparamos com o primeiro grafiti das nossas vidas?
ACDC e Ironmaiden pintados a spray vermelho na parede branca da escola.
O que quererá dizer ACDC e Ironmaiden? Pensávamos nós.
Foram quatro anos fantásticos que passaram a correr.
Um dia, quando tiver um filho, vou-lhe pedir para guardar com carinho tudo o que viver na escola primária. As vitórias e as derrotas.
Nunca mais lá entrei e moro a poucos metros dela.
Um dia gostaria de lá voltar.
Tenho saudades.

Cristiano Moreira

(Retirado do seu  blogue O olho vivo)


Nota. Sexta acepção da palavra distinção na Infopédia: "classificação de nível excelente em prova ou exame"



sexta-feira, 29 de novembro de 2019

"Abraços são abraços. Beijos são beijos..." (Clara Não)



Abraços são abraços. Beijos são beijos. Abreijos é metade de cada um, e eu quero-os inteiros. Mereço-os inteiros. Dou-os inteiros. Quando preciso de comprar desodorizante e cenouras, vou passar a escrever na lista “desonouras”. De certeza que fará sentido. Para quem me deseja abreijos, 50% de desconto é só bom em compras: o amor e o carinho devem ser sempre dados e inteiros. 💙

pormenores da vida, por Clara Não

(Ilustração e texto de Clara Não)


quinta-feira, 21 de novembro de 2019

Lembranças da minha infância (Fátima Mateus)

Bairro das Colónias, Lisboa

Recordo um episódio real que aconteceu na minha infância, mais precisamente quando tinha oito anos. Andava na escola primária no Bairro das Colónias, em Lisboa, perto da Av. Almirante Reis, de onde sou natural e onde cresci.

Durante algum tempo, fui seguida por uma mulher, não sei ao certo quanto tempo. Recordo que a mesma tentou ajudar-me mais que uma vez a atravessar a avenida. Pois, quando saía da escola, ia ter com a minha mãe ao trabalho ali perto.

Certo dia, a mulher disse que vinha da parte de meu pai, que estava a trabalhar e lhe pedira para me ir buscar à escola e ir ter com ele. Eu não disse nada, só que, no meu percurso habitual, parei à porta de uma loja cujo dono conhecia bem. Ele veio à porta meter-se comigo e a mulher disse: – “Então, até logo; à noite, vou a tua casa”. E afastou-se.

Falei em casa no assunto e durante algum tempo dei trabalho redobrado à minha mãe, que me vinha esperar a escola.

Hoje pergunto: se eu tivesse ido com a mulher, o que me teria acontecido? Como é que eu estaria hoje?

Fátima Mateus


(Blogue Oficina de Português)


Vista aérea do Bairro das Colónias, um bairro art-deco e modernista da capital portuguesa (Fotografia do Blogue Bairro das Colónias)


terça-feira, 12 de novembro de 2019

Ilustração e palavras de Clara Não


"estou mesmo chateada com os monstros do estado que podem melhorar a vida de centenas de crianças doentes e nada fazem.

desenhei a minha raiva, através de uma senhora simpática mas sincera, não fosse ela fazer parte de uma nova agência de viagens que criei, chamada "Maria Sincera das Dores", especialista em viagens sinceras e em mandar monstros insensíveis para o c******.

estou mesmo chateada"

Clara Não


ENTREVISTAS 27. 12. 2018

Clara Não: “‘Well-behaved women rarely make history.’ Ainda hoje tenho este papel e sempre que olho para ele sorrio, porque é verdade.”

by Beatriz Teixeira

Clara Silva é Clara Não, uma Clara dos sete ofícios que nos tem lembrado com ilustrações infantis e palavras tortas que as verdades são para ser ditas, assim de uma forma muito crua, com palavrões e tudo, se for preciso. E podia ser só um ato de rebeldia, mas é muito, muito mais que isso. Porque Clara não fala de pelos, de vaginas, de bolsos das calças demasiado pequenos e de direitos das mulheres só por si e porque sim, fá-lo por todas nós que nos sentimos mais culpadas do que capazes quando é preciso dizer que não. Porque não é não, já dizia Clara. E quando começamos a dizê-lo, caramba, sabe mesmo bem.

Clara Não é ilustradora, artista, designer, escritora e tantas outras coisas. São muitas formas de manifestação, mas qual é sempre a sua missão?

A minha missão é dizer o que a maioria das pessoas tem medo de dizer e mostrar que não estamos sozinhas a pensar nisto. Isto é importante porque sinto que as pessoas pensam muito: “serei só eu? sou eu a esquisita?” – eu penso também muito assim. Por isso, a partir dos meus sentimentos, tomo como minha missão fazer com que as pessoas se sintam menos isoladas nos seus pensamentos, que encontrem outras pessoas que estejam na mesma situação. Além disso, falar de problemas e dilemas pessoais e da sociedade é abrir diálogo para se entender melhor as coisas, em vez de andar a dizer disparates com opiniões malformadas. São esses bitaites que me fazem comichão. Posso dizer que a minha missão é tratar de comichões antes que acabem em feridas?

E quem é a Clara no meio disso tudo? Eu sou uma mulher independente que finalmente encontrou o que queria fazer. Andei muito tempo sem saber o que queria. Experimentei o que achava que poderia funcionar, conforme os meus gostos, e foi assim que aprendi o que não gostava. Pode-se dizer que sou mimada nisso, porque fiz birra com o que não queria fazer até encontrar o que queria. Quando descobri, não fiquei à espera que as coisas acontecessem, dediquei-me às minhas ideias. Com isto não quero dizer que só faço o que quero, mas antes que procuro sentir-me realizada com o meu trabalho, seja ele qual for.

Diz muitas verdades na sua escrita e nos seus desenhos, e ensina-nos a dizer mais vezes “não”. Também se está a ensinar a si própria?

(A resposta vai parecer irónica) Sim. É muito mais difícil dizer não do que sim. Com um sim não se contesta nada, aceita-se. Disse muitas vezes que sim, quando devia ter dito que não, porque tive medo de me impor. O que acontece agora é que digo não quando quero dizer que não. Aprendi que devo a mim mesma ser sincera e honesta, por respeito a mim e por respeito aos outros. Ninguém vai estar sempre pronto a defender-me sem ser eu própria. Mesmo assim, muitas vezes sinto culpa e ansiedade por dizer não. Isto de aprender a dar voz a nós próprias é um caminho longo com estradas mal pavimentadas.

(Continua na revista Vogue, 27.12.2018)



segunda-feira, 11 de novembro de 2019

O que significa "queque"?



(Saldos, cupões e clientes especiais)

As lojas queques têm um código de máfia para saldos secretos? O cupão pode ser uma droga?

Sempre quero ver se alguém me fica com o casaquinho de Inverno que ando a namorar desde a canícula de Outubro. Assenta-me como uma luva e já o experimentei umas três vezes. Cai impecavelmente: "Até parece que foi feito para as suas medidas", diz o tipo da loja passando-me a mão pelo pêlo e dando a entender que normalmente só um alfaiate saberia disfarçar alguns dos defeitos anatómicos. Ora bem... e diga lá quando é que começam as promoçõezinhas para passar por cá? "Ah isso é segredo..." Olha-me este a fazer capelinha. A máfia das lojas avisa os "clientes especiais" por sms e faz festinhas privadas só para lhes dar as melhores peças a metade do preço e está-se a fazer caro comigo?

Luis Pedro Nunes (www.expresso.pt)


Eu perguntava por queque como adjetivo, vamos ver o verbete completo da Infopédia:

queque

ˈkɛk(ə)

nome masculino
CULINÁRIA bolo pequeno e fofo feito de farinha, manteiga, açúcar e ovos

adjetivo, nome de 2 géneros

coloquial que ou pessoa snobe que cultiva uma aparência sofisticada e que, geralmente, é pretensiosa e afetada; snobe

Do inglês cake, «bolo»


E no dicionário Priberam, lemos:

adjectivo de dois géneros e substantivo de dois géneros

2. [Portugal, Informal, Depreciativo] Que ou quem tem aparência pretensiosa, arrogante.

3. [Informal] Que ou quem é considerado chique, elegante, bem-vestido ou fino.

E queque é sinônimo de beto, que significa (Infopédia):

coloquial pessoa, geralmente jovem, pertencente a um meio abastado e socialmente favorecido, que usa roupas e acessórios caros e frequenta os lugares da moda.






quinta-feira, 7 de novembro de 2019

A primeira vez que andei de avião



Um rapaz conta como é que foi a primeira vez que ele andou de avião. Como é que foi a vossa primeira vez? Contem-me!


A primeira vez que andei de avião

Quando cheguei ao aeroporto estava muito nervoso.Fui comer uma sandes, isto à hora de almoço. Depois fui fazer o check-in, com o meu pai, a minha mãe e os meus irmãos: Daniel e Gil. De seguida fomos a uma espécie de centro comercial. E fomos andando para uma sala de espera. Quando chamaram os passageiros para o nosso voo, nós dirigimo-nos a uma caixa, depois fomos de autocarro até o avião. Aí começava a sentir-me muito nervoso. Quando me sentei, foi ao lado do meu pai e da minha mãe. Dei a mão à minha mãe e o avião começou a levantar. Deu-me um friozinho na barriga mas passou quando já lá estávamos no alto, não se sentia nada. Li um bocadinho e passou-se bem, depois veio o lanche, era uma sandes de peru com queijo e a bebida era compal. Depois sobrevoamos Londres. E indicaram que íamos aterrar, pois porque havia sempre indicações. Quando aterrámos o meu pai gritou e toda a gente olhou para ele, apesar de ter sido uma boa aterragem. O voo foi demais, adorei!!!

Duarte Júlio


(Blog Maravilha)




quarta-feira, 6 de novembro de 2019

A árvore (Sophia de Mello Breyner Andresen)


No centenário de Sophia de Mello Breyner Andresen (Porto, 6 de novembro de 1919 — Lisboa, 2 de Julho de 2004)


"Reconto de A Árvore de Sophia de Mello Breyner Andresen, utilizando estampas japonesas. Participação no BiblioFilmes: Livros, Bibliotecas, Acção! (limite de tempo 3.14 m.!!!) "


A ÁRVORE

Era uma vez – em tempos muito antigos, no arquipélago do Japão – uma árvore enorme que crescia numa ilha muito pequenina.

Os japoneses têm um grande amor e um grande respeito pela Natureza e tratam todas as árvores, flores, arbustos e musgos com o maior cuidado e com um constante carinho.

Assim, o povo dessa ilha sentia-se feliz e orgulhoso por possuir uma árvore tão grande e tão bela: é que em nenhuma outra ilha do Japão, nem nas maiores, existia outra árvore igual. Até os viajantes que por ali passavam diziam que mesmo na Coreia e na China nunca tinham visto uma árvore tão alta, com a copa tão frondosa e bem formada.

E, nas tardes de Verão, as pessoas vinham sentar-se debaixo da larga sombra e admiravam a grossura rugosa e bela do tronco, maravilhavam-se com a leve frescura da sombra, o suspirar da brisa entre as folhagens perfumadas.

Assim foi durante várias gerações.

Mas, com o passar do tempo, surgiu um problema terrível, e por mais que todos meditassem e discutissem, ninguém era capaz de arranjar uma boa solução.

Porque, ao longo dos anos, a árvore tinha crescido tanto, os seus ramos tinham-se tornado tão compridos, a sua folhagem tão espessa e a sua copa tão larga que, durante o dia, metade da ilha ficava sempre à sombra.

De maneira que metade das casas, das ruas, das hortas e dos jardins nunca apanhava sol.

E, na metade ensombrada, as casas estavam a ficar húmidas, as ruas tinham-se tornado tristes, as hortas já não davam legumes, os jardins já não davam flor. E a gente que ali morava andava sempre pálida e constipada.

E, à medida que a sombra da árvore crescia, crescia também a perturbação.

As pessoas gemiam:

— Que havemos de fazer? Que havemos de fazer?
 
* * *



Até que foi decidido a população reunir-se toda em conselho para examinar bem o problema e decidir o remédio que devia dar-lhe.

Discutiram durante muitos dias e, depois de todos terem falado, chegou-se à triste conclusão de que era preciso cortar a árvore.

Houve choros, lamentações, gemidos.

A árvore era bela, antiga e venerável. Fazê-la desaparecer era um acto que não só entristecia os habitantes da ilha mas que também os assustava.

Mas não havia outro remédio e quase todos acabaram por concordar com o corte.

No lugar onde antes ela se erguia, plantaram um pequeno bosque de cerejeiras, pois as cerejeiras nunca crescem muito.

* * *

Abater a árvore foi difícil e toda a gente teve de ajudar.

Mas, depois de cortada, ela ocupava tanto espaço que a ilha ficou quase sem lugar para mais nada. Por isso começaram a desfazê-la: primeiro cortaram os ramos e as pernadas e a sua madeira foi distribuída entre todos, para que cada um pudesse fabricar alguma coisa que lhe lembrasse a árvore tão amada.

Alguns fabricaram pequenas mesas, outros, varandas para as suas casas, outros, caixilhos para os biombos, outros, caixas, tabuleiros, tigelas, colheres, pentes e ganchos para as mulheres espetarem no cabelo.

No fim ficou só o enorme e grosso tronco nu, deitado através da ilha.

Então começaram a chegar viajantes e armadores que queriam aquela óptima madeira para fabricar barcos.

Mas a população não quis. Reuniram todos outra vez em conselho e decretaram:

— Os habitantes desta ilha não querem separar-se da sua árvore que, antes de crescer demais, lhes deu tanta alegria. Vamos nós próprios construir o nosso barco.

E assim foi. Depois da chuva do Outono, deixaram o tronco secar durante longos meses e, logo que viram que a madeira já estava bem seca, meteram mãos à obra.

E, como são um povo muito inteligente, os japoneses, que trabalham muito bem, muito depressa, com muito esmero e são óptimos carpinteiros, construíram rapidamente uma grande e linda barca toda esculpida e pintada de muitas cores.

Então houve uma grande festa e a barca foi lançada ao mar.

À noite houve fogo de vista e em todas as ruas e praças se acenderam balões de papel, azuis, amarelos e vermelhos.

* * *

D’aí em diante a vida do povo daquela terra passou a ter uma vida muito mais animada e variada e quase todos se tornaram muito mais ricos.

Antes, como a ilha era tão pequena, os seus habitantes só possuíam pequenos barcos de pesca e só podiam navegar até às ilhas vizinhas.

Quando alguém precisava de ir mais longe tinha que arranjar um lugar em certos barcos maiores que de vez em quando por ali passavam.

Agora tudo tinha mudado. Agora, graças à grande barca, navegavam constantemente de ilha em ilha davam grandes passeios pelo mar e faziam óptimos negócios.

Às vezes nas noites calmas de Verão ou de Outono grupos de pessoas embarcavam e iam até ao largo ver a lua cheia sobre o mar. Ou então rondavam a ilha junto à costa, até ao extremo sul, para irem ali admirar os recortes negros dos rochedos sobre a claridade clara e azulada do luar.

Depois, no Inverno seguinte comentavam estes passeios, comparavam tudo o que tinham visto, discutiam qual fora a mais bela noite, a mais bela paisagem.

* * *

Entretanto, à medida que o tempo ia passando, as cerejeiras que tinham plantado iam crescendo e embelezando.

Por isso a gente da ilha passou a celebrar, todos os anos, a festa da cerejeira em flor.

Quando acabava o Inverno e começava a surgir a Primavera tudo se animava.

Os pedreiros, os tanoeiros e os carpinteiros vinham trabalhar para o ar livre e riam e cantavam enquanto esculpiam, serravam, martelavam.

Havia grande azáfama e pelas ruas passavam pessoas muito apressadas: iam a correr às lojas de tecidos comprar kimonos de Primavera para vestirem quando chegasse o dia em que já pudessem ir admirar o primeiro desabrochar das flores.

E nas ruas, nos jardins, nos campos, os marmeleiros, as macieiras, as cerejeiras já estavam carregadas de botões fechados.

No centro da povoação aparecia então o macaco amestrado, vestido com um casaquinho azul e acompanhado pelo seu dono. E em redor juntavam-se as crianças e adultos para admirarem as habilidades do animal sábio.

E as crianças ficavam mudas de espanto quando aparecia um grande leão de papel que vinha pela rua fora num andar baloiçado, acompanhado por dois homens vestidos com kimonos amarelos. Passavam por todas as ruas e por fim paravam debaixo dos ramos das cerejeiras.

Então os homens do kimono amarelo começavam a rufar os tambores e o leão começava a dançar. E um dos homens cantava:

Já dança o leão
Debaixo da cerejeira
Ao som dos tambores
O seu bailar faz abrir
Mais depressa as flores


E, no dia seguinte, nos ramos das cerejeiras, as pequenas flores cor de rosa estavam todas abertas.

* * *

Assim, durante muitos anos, a vida naquela ilha correu com muita alegria e animação.

Mas apesar dessa alegria, apesar dos bons negócios e dos grandes passeios, todos se lembravam com saudade da velha árvore.

— Como era alta e bela! — diziam.

— Como a sua sombra era perfumada!

— Como era doce e leve o sussurrar da brisa nas suas folhas!

— Como a sua copa era redonda e bem formada!

— Como as suas folhas eram verdes e bem desenhadas!

— Como era tão suave a frescura debaixo dos seus ramos, nas manhãs de Verão!

E, assim, entre palavras e pensamentos, a árvore nunca era esquecida.

* * *

E os anos foram passando.

Até que os marinheiros e os calafates descobriram que estava a acontecer uma grande desgraça:

A madeira da quilha da grande barca tinha começado a apodrecer.

— Ai de nós! — choravam os habitantes. — Não vamos dar mais passeios pelo mar. Nas noites de lua cheia, não vamos visitar mais as outras ilhas, não vamos fazer mais negócios.


Mas os comerciantes sossegaram-nos.

— Durante estes anos — disseram eles — graças à nossa grande barca, andámos a navegar de ilha em ilha, de porto em porto, a comprar e a vender, e fizemos negócios tão bons que juntamos muito dinheiro. Por isso, como aqui não há outra árvore enorme, e as árvores que agora temos fazem muita falta se forem cortadas, estamos dispostos a ir às outras ilhas comprar boa madeira. E todos juntos podemos construir outra grande barca.

A população aplaudiu o discurso e concordou com o projecto e daí a poucos meses a barca nova ficou pronta e logo a puseram a flutuar.

Então, a barca velha foi arrastada para a praia. O povo cercou-a em silêncio com grande tristeza, e os carpinteiros e os calafates examinaram-na tábua por tábua.

A madeira do casco, do convés e dos bancos estava quase toda semi-apodrecida e só servia para queimar. Mas o mastro grande, que tinha sido tirado do cerne da velha árvore, continuava são e bem conservado.

— Temos que fazer com este mastro alguma coisa que nos lembre a nossa árvore antiga e a nossa barca — disse o chefe da ilha.

Depois de muito pensar resolveram fazer uma biwa, que é uma espécie de guitarra japonesa.

Quando a obra ficou pronta, a população reuniu-se na praça principal e sentaram-se em silêncio em redor do melhor músico da ilha para ouvirem o som da biwa.

Mas, mal os dedos do músico fizeram soar as cordas, de dentro da biwa ergueu-se uma voz que cantou:

A árvore antiga
Que cantou na brisa
Tornou-se cantiga

Então, todos compreenderam que a memória da árvore nunca mais se perderia, nunca mais deixaria de os proteger, porque os poemas passam de geração em geração e são fiéis ao seu povo.

Sophia de Mello Breyner Andresen

A Árvore, Porto, Liv. Figueirinhas, 1987(Lido em Contadores de histórias)



terça-feira, 29 de outubro de 2019

Byung-Chul Han e as 'selfies'



A adição às selfies não tem muito a ver com um saudável amor de si mesmo: não é mais do que a marcha no vazio de um eu narcísico que ficou só. Perante o vazio interior, o sujeito tenta em vão produzir-se a si mesmo. Mas é só o vazio que se reproduz. As selfies são o eu em formas vazias. A adição às selfies intensifica a sensação de vazio. O que leva a uma adição assim não é o saudável amor de si mesmo, mas uma autorreferência narcísica. As selfies são belas superfícies lisas e lustrosas de um eu esvaziado e que se sente inseguro. Hoje, para se escapar ao vazio atormentador, deita-se mão ou à lâmina de barbear ou ao smartphone. As selfies são superfícies lisas e lustrosas que ocultam por um breve tempo o eu vazio. Mas se as virarmos da frente para trás, deparamos com o reverso coberto de feridas e que sangra. As feridas são o reverso das selfies.

Byung-Chul Han, A Expulsão do Outro, Lisboa, Relógio D’Água, 2018, p.35.


(Obrigado ao Luís, que descobriu)

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Sobre a fotografia usada para ilustrar as palavras de Byung-Chul Han:

"Selfies mataram mais que ataques de tubarão em 2015

O principal tipo de acidente ligado às selfies é a queda; pelo menos três das 12 mortes registradas estão ligadas a isso 

As aparentemente inofensivas selfies já mataram mais que os temidos tubarões em 2015. Até o início de setembro, 12 pessoas morreram em acidentes envolvendo selfies no ano. Enquanto isso, no mesmo período, os ataques de tubarões foram responsáveis por oito mortes. O levantamento foi feito pelo site de tecnologia Mashable."  

(Correio - Bahia)




quinta-feira, 17 de outubro de 2019

O guru (Rui Zink)

Desenho de Nick Alston



O GURU

Con­vi­daram-no porque ti­nham ou­vido dizer que era uma pessoa de opiniões fortes e solução para tudo. Tinha até página no Fa­ce­book.
Quando chegou foram-no es­perar à estação.
Le­varam-no ao hotel.
Es­pe­raram que se re­fres­casse.
Le­varam-no a almoçar. Le­varam-no a ver as vistas.
Le­varam-no, por fim, ao salão de conferências.
O an­fi­te­atro es­tava cheio.
Ao vê-lo, uma ovação.
O guru sorriu mo­des­ta­mente, com a modéstia própria das pes­soas im­por­tantes.
Não tinha pro­pri­a­mente um dis­curso a fazer, disse, porque o mundo pre­cisa de acções, não de pa­la­vras.
Houve um ar­re­medo de aplauso.
A pri­meira per­gunta veio de um jovem es­tu­dante:
Mestre, boas ou más acções?
O guru res­pondeu:
Todas as acções são boas.
Houve um se­gundo aplauso.
Um braço le­vantou-se:
Mestre, por que há guerras?
Porque há hu­manos, res­pondeu o guru.
Outro braço, este de uma moça bo­nita:
O que é o amor?
O guru ar­rotou:
Anda cá, filha que eu mostro-te.
A moça corou, cons­tran­gida.
Houve um vago aplauso.
Outra per­gunta, de uma es­tu­dante com ar in­te­lec­tual:
Mestre, como ter­minar com uma guerra?
Vence o teu ini­migo.
Só isso?
Ou então deixa-te vencer por ele. Se for mi­se­ri­cor­dioso, até é o mais prático.
Na sala ninguém bateu palmas.
Um braço no ar:
Como acabar com as guerras?
Sim­ples. Mata os teus ini­migos.
A sala ficou fria.
Ou morre, acres­centou o guru.
Como ser feliz, mestre, e deixar de ter pre­o­cupações?
Morre.
Quando le­varam o guru de novo ao hotel, a dúvida geral era se não seria um im­postor.
E no en­tanto não havia razão para isso. Quando no dia se­guinte viram as soluções no jornal, ve­ri­fi­caram que as res­postas es­tavam todas certas.

Rui Zink



Definiçao de guru no dicionário da Infopédia:

nome masculino
1. mestre espiritual hindu
2. líder de um movimento religioso

nome de 2 géneros
1. coloquial pessoa que guia ou orienta; conselheiro espiritual
2. figurado pessoa muito influente em determinada área de atividade (sobretudo económica ou de gestão)

Do sânscrito guru, «pessoa grave»


quarta-feira, 8 de maio de 2019

Da saudade (Cecília Meireles)



DA SAUDADE

A natureza da saudade é ambígua: associa sentimentos de solidão e tristeza – mas, iluminada pela memória, ganha contorno e expressão de felicidade. Quando Garrett a definiu como “delicioso pungir de acerbo espinho”, estava realizando a fusão desses dois aspectos opostos na fórmula feliz de um verso romântico. Em geral, vê-se na saudade o sentimento de separação e distância daquilo que se ama e não se tem. Mas todos os instantes da nossa vida não vão sendo perda, separação e distância? O nosso presente, logo que alcança o futuro, já o transforma em passado. A vida é constante perder. A vida é, pois, uma constante saudade. Há uma saudade queixosa: a que desejaria reter, fixar, possuir. Há uma saudade sábia, que deixa as coisas passarem, como se não passassem. Livrando-as do tempo, salvando a sua essência da eternidade. É a única maneira, aliás, de lhes dar permanência: imortalizá-las em amor. O verdadeiro amor é, paradoxalmente, uma saudade constante, sem egoísmo nenhum.

Cecília Meireles



quarta-feira, 23 de janeiro de 2019

Carta (Matilde Rosa Araújo)



Carta

Porto, cidade sempre tão perto. Um instante mágico na minha memória, instante que se repetiu tantos anos.
Chegar de comboio, atravessando a Ponte Maria Pia, a luz tímida dentro do comboio, aquele cheiro da locomotiva ao qual posso chamar aroma.
Olhar através do vidro da janela, olhar, querer ficar com a imagem, o comboio já a abrandar num cansaço manso. E o apitar da máquina, canto roubado de agonia.
E a cidade naquele instante da janela, a cidade vista, namorada da ponte. Rosto moreno de granitos, lágrimas com risos de chuva a iluminá-la.
Rosto moreno de granito com beijos de sol em doce afago.
O rio, que se chama Douro com tanta razão.
Para mim, o Porto é chegar. Como um sonho sonhamos, mas como contar o que é, o foi o sonho?
Cidade severa e meiga, granitos que de longe se afagam.
O sonho continuado tantos anos do meu olhar a cidade, da Ponte Dona Maria Pia.

Matilde Rosa Araújo, in Com Quatro Pedras na Mão 


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Podem fazer uma ideia do tempo de que fala Matilde Rosa Araújo, lendo os seguintes linhas da Wikipédia, e de passagem, podem ver como é que é a ponte Maria Pia.



A Ponte Maria Pia é uma infraestrutura ferroviária, que transportava a Linha do Norte sobre o Rio Douro, entre as cidades do Porto e Vila Nova de Gaia, no Norte de Portugal. Foi inaugurada em 4 de Novembro de 1877, e foi encerrada em 24 de Junho de 1991, tendo sido substituída pela Ponte de São João. É considerada, junto com o Viaduto de Garabit, como as maiores obras-primas executadas pelo engenheiro Gustave Eiffel.

(Wikipédia)


Pormenor da ponte




sexta-feira, 30 de novembro de 2018

"Se fosse ensinar a uma criança a beleza da música..." (Rubem Alves)


Se fosse ensinar a uma criança a beleza da música não começaria com partituras, notas e pautas. Ouviríamos juntos as melodias mais gostosas e lhe contaria sobre os instrumentos que fazem a música. Aí, encantada com a beleza da música, ela mesma me pediria que lhe ensinasse o mistério daquelas bolinhas pretas escritas sobre cinco linhas. Porque as bolinhas pretas e as cinco linhas são apenas ferramentas para a produção da beleza musical. A experiência da beleza tem de vir antes.

Rubem Alves


Rubem Alves (1933 — 2014) foi um psicanalista, educador, teólogo, escritor e pastor presbiteriano brasileiro. Foi autor de livros religiosos, educacionais, existenciais e infantis.


Choro número 1, de Villa-Lobos


Heitor Villa-Lobos (Rio de Janeiro, 5 de março de 1887 — Rio de Janeiro, 17 de novembro de 1959) foi um compositor brasileiro.

Destaca-se por ter sido o principal responsável pela descoberta de uma linguagem peculiarmente brasileira em música, sendo considerado o maior expoente da música do modernismo no Brasil, compondo obras que contêm nuances das culturas regionais brasileiras, com os elementos das canções populares e indígenas.

No Brasil, sua data de nascimento é celebrada como Dia Nacional da Música Clássica.


Choro número 1, para piano



quinta-feira, 27 de setembro de 2018

Alguém nos conta as suas "melhores férias de verão"


Não me lembro de onde encontrei este breve texto de um jovem a contar umas ótimas férias de verão que ele passou no nosso país, em Palma de Maiorca:


As minhas melhores férias de verão!!

Hoje eu acabei de chegar das minhas férias longas de verão, e eu fui a Palma de Maiorca: aquilo é simplesmente espectacular. O hotel ficava mesmo em frente da praia e o melhor era que também havia lá uma piscina, baloiços de rede que nós adoravamos ir deitar-nos lá. De manhã cedinho nós íamos dar um mergulho e depois tomávamos o pequeno-almoço. Logo a seguir íamos passear com os guias turísticos para conhecer melhor a ilha. Andámos de jipe, de land rover e muitos mais; foi tudo como um sonho mas não era, era realidade. Depois fomos andar de barco até ao outro lado onde fomos beber água de coco que era maravilhosa e eu adorei. À noite nós passeavamos à beira mar e comíamos um gelado. Era tão fixe acordar e ver logo o mar e o nascer e o pôr-do- sol. A comida era deliciosa: serviam um pouco de tudo.

Os sumos eram todos tropicais alguns deles, eu nunca tinha provado. Até fiz amigos novos lá.

Espero ter muitas férias iguais a estas =)