Ouguela (Alentejo, Portugal) em baixo; Alburquerque (Badajoz, Espanha) ao fundo.
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terça-feira, 3 de dezembro de 2019

Aqueles tempos da escola primária...

Escola Primária de Ribeira de Alte


É claro que para vocês aqueles tempos ficam muito mais perto do que para o autor deste texto.


E quando eu andava na escola primária?!

Depois de acordar brindei o exterior do meu corpo com um banho quente.
De seguida brindei o interior do meu corpo com uns belos cereais com leite.
Seguiu-se a viagem até à fisioterapia, que agora já só acontece 3 vezes por semana. Bom, não é?!
Mas isso agora não interessa nada.
Sou vizinho da minha ex-escola primária, que já foi minha. Foi minha 4 anos.
Passo por lá todos os dias. Hoje não foi excepção.
As aulas começaram hoje. Parece-me.
Ao passar vi por lá a criançada. Estavam no tão afamado intervalo.
Depois de ver aquilo segui em direcção ao que tinha a fazer.
O meu corpo conduzia o carro e a minha mente conduzia recordações.
E quando eu andava na escola primária?!
Passei pela mão dos duros.
Professor Nogueira. Professora Maria Angelina. Professora Alcina. Professora Rosa.
Eu faço parte dos galácticos daquela escola.
A mim deram-me aulas os que deram aulas aos meus pais.
Mesmo sendo ensinado pelo núcleo duro não fui o aluno timido, calado e aterrorizado.
Nem pensar.
Em todos as minhas folhas de avalição, naquela parte do comportamento tenho: "distraído e conversador".
Eu não era fácil de gerir.
Hoje? Hoje sou pior. Em ponto grande, mas pior.
Mas o "distraído e conversador" passou com distinção por aquela escola. Sem chumbos.
Já não me lembro como foi o meu último dia dentro daquelas paredes.
Já o primeiro nunca me esquecerei.
Sete reguadas nas mãos. SETE!!!
O Eduardo teve a ideia e eu a estupidez de alinhar.
Passou-se assim:
"Oh Cris, Cris!? Vamos jogar às espadas?"
"Como?"
"Com os lápis"
O brilho nos meus olhos e o sim às reguadas na minha boca.
"Vamos!!!"
E toca a virar para trás, para vencer o duelo dos lápis.
Quem venceu? Foi o Professor Nogueira. Deu oito reguadas no Eduardo e sete aqui no menino.
Desde esse dia, em 1989, que nunca mais joguei às espadas.
E a tabuada? Porra, tinhamos que a saber todinha.
Os rios. As serras. Aquele Meio Fisico consumia-me.
Sentavamo-nos em cima do pão antes do intervalo.
Porquê?! Não sei. Talvez porque alguém disse que aquilo era fixe.
O intervalo era mítico. A barra forte. A macaca. Os elásticos. O futebol.
E o leite? Tão bem que nos sabia aquele leite simples.
Depois tinhamos o dia do fluor. Porra, aquilo até ardia na boca.
Mas giro era o dia das fotografias.
Nós a chegar carregados. Com o sono às costas. O cabelo a olhar para o ar.
"Dia de fotografias".
Azáfama total.
Lamber a mão para tombar o cabelo teimoso que não tombava.
Ajeitar a t-shirt do Vitinho.
Enfim, era como que uma preparação para um verdadeiro desfile de moda.
As festas de fim de período foram, todas elas, muito melhores que o último Rock in Rio.
Tudo era melhor. Mas tudo mesmo.
A caminho de casa havia sempre tempo para um assalto às cerejas e às maçãs do Terranão.
Depois era a fuga ao cão. Lasco, o terrível pastor alemão.
Ninguém nos ia buscar à escola.
Não havia sinais de trânsito, nem passadeiras.
Havia uma corrida louca para casa.
Despachar os deveres e arrancar na BMX.
Bons tempos esses.
Tinhamos direito a um pacote de leite por intervalo.
Um dia, na 4ª classe, a Professora Rosa deu-nos liberdade em relação ao leite.
Poderiamos beber os pacotes que quisessemos.
A parvoíce substituiu a sede e na minha mente surgiu a pergunta: "porquê bebe-los quando posso rebentá-los?"
E assim foi.
Resultado: o recinto do intervalo ficou completamente cheio de pacotes de leite rebentados.
Eu tive a coragem de rebentar o primeiro. Os meus amigos tiveram a burrice de me seguir o exemplo.
Claro está que a Professora Rosa viu e mandou-me limpar tudo. Tuuudoooo!!
Tive que denunciar mais malta. Teve mesmo que ser. Só assim tive ajuda.
E aquele dia em que chegamos à escola e nos deparamos com o primeiro grafiti das nossas vidas?
ACDC e Ironmaiden pintados a spray vermelho na parede branca da escola.
O que quererá dizer ACDC e Ironmaiden? Pensávamos nós.
Foram quatro anos fantásticos que passaram a correr.
Um dia, quando tiver um filho, vou-lhe pedir para guardar com carinho tudo o que viver na escola primária. As vitórias e as derrotas.
Nunca mais lá entrei e moro a poucos metros dela.
Um dia gostaria de lá voltar.
Tenho saudades.

Cristiano Moreira

(Retirado do seu  blogue O olho vivo)


Nota. Sexta acepção da palavra distinção na Infopédia: "classificação de nível excelente em prova ou exame"



quinta-feira, 21 de novembro de 2019

Lembranças da minha infância (Fátima Mateus)

Bairro das Colónias, Lisboa

Recordo um episódio real que aconteceu na minha infância, mais precisamente quando tinha oito anos. Andava na escola primária no Bairro das Colónias, em Lisboa, perto da Av. Almirante Reis, de onde sou natural e onde cresci.

Durante algum tempo, fui seguida por uma mulher, não sei ao certo quanto tempo. Recordo que a mesma tentou ajudar-me mais que uma vez a atravessar a avenida. Pois, quando saía da escola, ia ter com a minha mãe ao trabalho ali perto.

Certo dia, a mulher disse que vinha da parte de meu pai, que estava a trabalhar e lhe pedira para me ir buscar à escola e ir ter com ele. Eu não disse nada, só que, no meu percurso habitual, parei à porta de uma loja cujo dono conhecia bem. Ele veio à porta meter-se comigo e a mulher disse: – “Então, até logo; à noite, vou a tua casa”. E afastou-se.

Falei em casa no assunto e durante algum tempo dei trabalho redobrado à minha mãe, que me vinha esperar a escola.

Hoje pergunto: se eu tivesse ido com a mulher, o que me teria acontecido? Como é que eu estaria hoje?

Fátima Mateus


(Blogue Oficina de Português)


Vista aérea do Bairro das Colónias, um bairro art-deco e modernista da capital portuguesa (Fotografia do Blogue Bairro das Colónias)


segunda-feira, 21 de maio de 2018

Samuel fala de quando ele era um miúdo

Salinas e a cidade de Aveiro ao fundo



Por volta dos meus 10 anos de idade tornei-me um miúdo estranho. A conversa da igreja do meu pai começou a entrar-me por um ouvido e a sair pelo outro; na escola primária, embora com a sorte de ter um professor fantástico, aprendia mais de História desviando-me do caminho normal para casa e passando belos pedaços de tarde com um velho sapateiro que contava as façanhas, virtudes e vergonhas de reis, rainhas, soldados e seus derivados, como se as tivesse vivido; na aldeia perto de Aveiro, em Ouca, onde por mim viveria sempre, aprendia sobre agricultura servindo de peso à grade de arar o campo de milho, vindimando, apanhando batatas (estragando muitas...); aprendia sobre o vinho pisando as uvas no lagar; aprendia sobre o pão passando noites em claro a “trabalhar” (dizia eu) na padaria do pai das minhas primas (pão para toda a aldeia e mais algum, tudo amassado à mão, forno de lenha), o grande primo António, um manancial de estórias que só paravam de desfilar de manhã... ou quando eu, depois de três dias sem dormir, “entrava em coma” em cima dos sacos de farinha; aprendia sobre ferro e fogo e tudo o mais que viesse à conversa, com o outro António, este, o senhor António, vizinho da frente da casa da aldeia, ferreiro, ferrador, um artista na forja e a “calçar” de novo juntas de bois, cavalos... e também grande “filosofador”, bastando a minha disponibilidade para accionar a alavanca do enorme fole da forja para ter conquistado a sua simpatia.

Todos suportavam estoicamente as minhas intermináveis perguntas e faziam de conta que admiravam os meus modernos e citadinos conhecimentos académicos, revistos e aumentados ano após ano.

Foi assim que aprendi a ver para lá do postal ilustrado da vida do campo e das profissões em vias de extinção. Ver o lado menos pitoresco, o lado do tremendo esforço, do sofrimento, dos bebés transportados em canastras, à cabeça, por mães operárias a caminho das fábricas de ferragens, pedalando nas suas bicicletas (que espectáculo! - dizia quem passava), do desespero das cheias do campo de Águeda (uma aventura para a garotada) que destruiam todo o milho de um ano de trabalho, do luto eterno dos pescadores da Vagueira e de Ílhavo. Foi assim que fiquei a conhecer o inferno por detrás da coisa mais bela que enfeitava o caminho que fazia para chegar à Costa Nova do Prado, as resplandecentes salinas de Aveiro, onde toneladas de mar eram transformadas em sal, que ia alimentar os porões dos barcos que partiam para a faina do bacalhau... e regressava, meses depois, impregnado nos milhares e milhares de grandes peixes que ficavam ali, esparramados a secar ao sol, em “estendais” intermináveis, Gafanha após Gafanha...

Samuel, no seu blogue Cantigueiro




quinta-feira, 16 de fevereiro de 2017

"Quando era pequeno as férias eram grandes" (Anastácio Neto)



Quando era pequeno as férias eram grandes. Duravam meses. Não cabiam na mochila da escola. Agora são minúsculas. Duas ou três semanas riscadas no calendário de mesa do escritório. Agora são do tamanho de um voucher que se esconde no bolso de trás das calças.

Quando era pequeno as férias eram grandes. Íamos (eu e o meu irmão) para a aldeia natal do meu pai, perto de Vinhais, em Trás-os-Montes. A casa da minha avó era feita de pedra com sorrisos lá dentro. Primos e tias recebiam-nos de braços abertos e mãos enrugadas. O cheiro da lareira e do fumeiro perfumava a casa. Jogávamos à sueca na varanda. Rezava para que não me saísse a manilha seca. A madeira rangia sob os nossos pés. Corríamos dentro de casa, era permitido. Ouvi pela primeira vez Pink Floyd num cartucho que se encaixava na aparelhagem da sala. No telhado desse móvel encontrei um charuto dentro de uma caixa. Fumei às escondidas. Dei o meu primeiro beijo na margem do rio.

Quando era pequeno as férias eram grandes. Feitas de aventuras. Os caminhos da aldeia cheiravam à passagem de cavalos e ovelhas. Os idosos cansados, sorriam como crianças. As árvores indicavam o caminho para os terrenos de cultivo, nos quais os meus primos ensinavam o nome das coisas. Chamavam fragas às rochas. Todos os anos conhecíamos um primo novo, uma namorada diferente e um canto oculto da aldeia que parecia imensa. Bebíamos tango (7 Up com groselha). Dançávamos música pimba que na altura não se chamava pimba. Como um gelado, levávamos connosco um pouco da felicidade dos outros que se derretia pelo caminho.

Quando era pequeno as férias eram grandes. Agora são cada vez mais pequenas. A casa da avó foi restaurada. Está moderna. A madeira foi substituída por mosaico. O meu pai e a minha avó reencontraram-se noutra casa e estão felizes. Agora somos diferentes, nós os que cá ficámos. Estamos mais velhos. Menos velozes. Contentamos-nos com dias em Agosto sem vento, pequeno-almoço com fruta e dois mergulhos no mar à tarde. As aventuras cedem lugar ao merecido descanso. Optamos pelo previsível, evitamos surpresas. Somos felizes de outra forma. Depois dos quarenta também temos férias grandes mas, são mais pequenas. Feitas com pedaços de memórias colados com amor de quem, neste agora, sempre esteve connosco e nos torna em seres um pouco mais felizes.

Anastácio Neto


segunda-feira, 23 de maio de 2016

"Quando eu era criança queria ter super poderes" (Lila)




Vamos esclarecer o que isso de "fazer uma simpatia" com a ajuda do Dicionário Houaiss:

simpatia
10 Regionalismo: Brasil. ação (observação de algum ritual, uso de determinado objeto etc.) praticada supersticiosamente com finalidade de conseguir algo que se deseja




segunda-feira, 11 de abril de 2016

Saudades das minhas férias de criança! (Miska)




Saudades das minhas férias de criança!

O verão com crise, ou sem crise, é sempre uma das melhores coisas da vida! Então quando se está de férias .... não há melhor!

Há toda uma alegria no ar que aquece a alma, nos torna mais leves,mais tolerantes e nos faz pôr todos os problemas de lado: "Hospital? O que é isso? É onde trabalho? Ah... pois é ...claro! Agora assim de repente... não estava a ver!"

Se fechar os olhos quase consigo rever todos os verões da minha vida!

Que alegria era quando, no Alentejo ou no Algarve, se juntavam os primos todos e, num abrir e fechar de olhos, passávamos a ser uma família enorme.

Um quarto de duas crianças (na altura nós) se transformava, por magia, num quarto para 6 ou para 8 (dependia). Ainda hoje me ponho a pensar como é que cabíamos todas lá dentro e, mesmo assim, o quarto nos continuava a parecer enorme ?!!!

Ainda me lembro de à noite, no Alentejo, já adolescentes, a entrada para o nosso quarto se fazer pela janela, para não incomodarmos os pais, sempre que chegávamos a casa às duas ou três da manhã, vindas das nossas festas.

Depois ... a risota era tanta... que o efeito pretendido era posto em causa e...mais valia termos entrado pela porta.

E nos carros? Éramos sempre imensos os que iam no banco de trás! Não havia ainda cintos, nem regras de segurança a cortar- nos "o barato", e isso fazia de cada viagem a maior excitação do mundo!

Mas férias era isso mesmo!

Ouço ainda ao longe o barulho e a confusão das nossas vozes, as brincadeiras sem fim, a risota pegada, as sestas obrigatórias (que na altura eram a maior seca da vida), os passeios de carro, os dias na praia (enormes), os banhos na lagoa (hoje transformada numa moderna praia fluvial), os desejos pedidos a cada estrela cadente que víamos cruzar os céus (Deus queira que o... me peça namoro), os geladinhos que íamos comer todas as noites (chocolate, sempre), as partidas que pregávamos, os nossos passeios de bicicleta, as noites quentes e estreladas no Alentejo, o som dos grilos, as taças de tomate com açúcar (invenção da minha mãe para nos fazer comer tomate e que se transformou rapidamente numa gulodice obrigatória para todas nós, até a Maria não a dispensa hoje), os passeios até Espanha (já que estávamos ali tão perto), a choradeira que era de cada vez que vez que as férias acabavam e tínhamos de regressar a Lisboa!

As saudades instalavam-se e a única coisa a fazer para as abrandar um pouco era iniciar a contagem decrescente para as férias do ano seguinte....

por Miska, em 18.08.14




segunda-feira, 4 de abril de 2016

Uma citação de Saint-Exupéry



Antoine de Saint-Exupéry (1900 — 1944) foi um escritor, ilustrador e piloto francês. É o autor de O Principezinho (Le petit Prince, 1943). O título no Brasil é O Pequeno Príncipe.

É possível que muitos de vocês tenham lido algum excerto do livro. Para além das palavras em baixo, muito conhecidas, deixo-vos a dedicatória do livro. Em português, com certeza.



Os meninos que me perdoem por dedicar este livro a uma pessoa grande. Mas tenho uma desculpa de peso: essa pessoa grande é o melhor amigo que eu tenho no mundo inteiro. E tenho outra desculpa: essa pessoa grande é capaz de perceber tudo, mesmo os livros para crianças. E tenho outra desculpa, a terceira: essa pessoa grande mora em França e em França passa fome e passa frio. Bem precisa de ser consolada. Mas se todas estas desculpas não chegarem, então, gostava de dedicar este livro à criança que essa pessoa grande já foi. Porque todas as pessoas grandes já foram crianças. (Há é poucas que se lembram disso.)

Portanto, a minha dedicatória vai passar a ser assim:

Para Léon Werth quando ele era pequeno.


quinta-feira, 31 de março de 2016

"O problema é que quando criança machucamos..."



Não sabemos quem é que disse isto, mas cá fica. As pessoas machucam outras coisas que doem mais quando são crescidas. É a vida.


machucar
[mɐʃuˈkar]
verbo transitivo
1. (ferir) herir
2. (esmagar) machacar, aplastar
3. (cereais) desgranar
4. (amarrotar) chafar, arrugar

(Dicionários da Porto Editora)




quarta-feira, 16 de março de 2016

Coisas que eu achava quando era criança: mais duas



E vocês, alunos da turma de 3º AD, não se lembram de nenhuma dessas coisas que todas as crianças julgam naturais e os adultos não sabem ver? A vossa infância ainda fica bem pertinho do dia de hoje.





Quando eu era criança...




...chorava bem alto pra minha mãe escutar.

Hoje choro baixinho pra ninguém me perguntar o motivo.




sexta-feira, 10 de abril de 2015

"Quando era pequeno quis ser algumas coisas"



Alguém perguntou num forum "o que é que gostavam de ser quando eram crianças e a que é que brincavam?". Eis algumas das respostas

Hmm...
Quando era pequeno quis ser algumas coisas:
Mágico (vá, riam-se LOL);
Médico (que fui perdendo o gosto e a esperança ao longo dos anos devido às médias...);
Astronauta;
Polícia;
Professor (esta não tenho a certeza...).
É capaz de haver mais, mas agora não me lembro...

Quando era canuco, brincava às escondidas, futebol humano, 7 molhinhos (ai este jogo era tão giroooo), e jogos assim de rua!

Quando brincava em casa sozinho, era com carrinhos, carrões ( Gargalhada), action mans, legos, por aí! Tongue

AAAIIIIIIIII BELOS TEMPOS!!! Cheesy


canuco: Palavra de origen angolana que significa pessoa com pouca idade; jovem; rapaz, rapariga.


Qual era a profissão que vocês queriam ter quando eram mais pequenos? 




quarta-feira, 11 de março de 2015

Coisas que eu acreditava quando era criança


Quando somos crianças acreditamos em coisas que achamos lógicas, naturais... mas quando somos adultos olhamos para tudo aquilo com um sorriso. Podem ler estes exemplos. Haverá mais.

Quem é que vai começar a pesquisar na memória e contar nos Comentários coisas que acreditava quando era criança? Estou à espera.







sexta-feira, 21 de março de 2014

Ágata (Inês Dias)



Hoje é o Dia Mundial da Poesia, e nós acompanhamos com estes versos. Ontem tivemos mais poesia, a de João Guimarães Rosa.Uma dupla celebração!


ÁGATA 

Foi amor à primeira vista.
Ela tinha nome de pedra preciosa
e, na literalidade dos meus cinco anos,
cabelo em forma de pássaro – negro
asa de corvo.

Era o tempo em que ainda
aprendia com o corpo todo:
uma fractura exposta para entender
o significado de maioria, uma pneumonia
para descobrir a solidão.
Quando ela me cravou um lápis
sob o olho esquerdo, pressenti que a escrita,
grafite fria à flor do sangue,
deixaria marcas para sempre.

Nunca mais nos separámos.
Eu e as palavras,
a Ágata mudou de escola.

Inês Dias


Um raio ardente e paredes frias, Averno, Lisboa, 2013.




terça-feira, 22 de outubro de 2013

Maravilhas da paternidade

 



Maravilhas da paternidade

- E tu falaste para a rádio, pai?
- Sim.
- Sobre o quê?
- Sobre o Prémio Nobel de Literatura.
- (Os dois, num sobressalto de entusiasmo) Ganhaste?


José Mário Silva em  Bibliotecário de Babel








quarta-feira, 2 de outubro de 2013

"Quando eu era pequena, achava que as fadas existiam..."



Parece que Luz tem muito boa memória, não acham? Ela lembra-se de montes de coisas de quando era pequena, e é mais velha do que vocês.

Alunos do 4º ano, vocês que estão mais perto da vossa infância, depois de lerem as palavras de Luz, façam um pequeno esforço e lembrem-se daquelas coisas em que acreditavam e que, evidentemente, hoje já não acreditam nelas. É a vida. Já são crescidos...


Quando eu era criança

Quando eu era pequena, achava que as fadas existiam mesmo e que as histórias que me contavam eram mesmo verdadeiras. Pensava que os anões, quando nasciam eram tão pequeninos que deviam dormir em caixas de fósforos.

Tinha também as crenças clássicas da maioria das crianças: por vezes imaginava que era adoptada mas ninguém tinha coragem de me contar e que o governo só não dava mais dinheiro a toda a gente porque era mau, já que existia uma casa que fabricava dinheiro.

Pensava que se engolisse um caroço de laranja me nasceria uma árvore na barriga e o mesmo aconteceria com uma pevide de melancia. E se engolisse pastilha elástica teria que ser operada pois ela ficaria para sempre colada no estômago.

Quando eu era pequena, tudo aquilo com que não podia brincar ou mexer a minha mãe punha em cima de um armário e eu ficava desejosa de crescer para poder tirar de lá tudo, pois achava que lá em cima estava um monte de coisas boas. Achava que se tapasse os ouvidos e falasse, ninguém me poderia ouvir e que se tapasse os olhos ninguém me conseguiria ver. Também pensava que seria adulta assim que chegasse com os pés ao chão do carro.

A minha mãe dizia que se eu comesse legumes ficaria com o cabelo mais loiro e que as cenouras evitariam que eu chegasse a usar óculos algum dia e eu acreditava. Dizia-me que se algum dia tirasse os brincos, o buraco fecharia e nunca mais os poderia pôr. Então, um dia, uma das minha bonecas perdeu um brinco e eu chorei porque agora o buraquinho da sua orelha ia fechar.

Também acreditei que tudo o que se dizia na televisão era verdade, incluindo os anúncios e não entendia como podia a minha mãe dizer que era tudo mentiras.

Quando eu tinha 4 anos, a minha mãe mostrou-me o álbum de fotografias do casamento e eu fiquei muito triste porque não tinha ido à festa. Acreditava que os meus avós já tinha nascido velhinhos e que os meus pais nunca tinham sido crianças.

Acreditava que, sempre que pedia à minha mãe para comprar uma coisa e ela respondia "depois compro", ela compraria mesmo. Achava que a Branca de Neve e o Capuchinho Vermelho eram pessoas de verdade. Acreditava que, em dia de sol e chuva, havia mesmo um casamento de viúva em algum sítio. Achava que tinha vindo num comboio de França e que havia uma senhora que me tinha ido buscar ao comboio (era a parteira...).

E hoje tenho muitas saudades de tudo o que acreditei e achei ser verdade. Ai, que felicidade poder acreditar em tudo!

Luz




sexta-feira, 30 de setembro de 2011

Vamos contar as férias grandes



Os alunos do 4º ano, os mais velhos, devem escrever acerca das suas férias grandes, que, apesar de serem grandes, acabaram - como é natural. E deste modo revêem o perfeito simples (eu fui a.... , estive em..., nadei...) e o imperfeito (eu ia, nós íamos todas as tardes, fazíamos...), mais o vocabulário (praia, piscina, jogos, etc.)

Os textos que vos trago à respeito do assunto "férias grandes" são contados por adultos, mas são interessantes porque vão comprovar que esta coisa de ser miúdo ou miúda é igual em (quase) toda a parte. Vejam os jogos, as brincadeiras, os acidentes que sempre acontecem, os cães amigos do peito (nós dizemos amigos del alma), sei lá, tanta coisa...

É claro que naquela altura não havia computadores, nem consolas, nem mp3, nem telemóveis... Mas ninguém se aborrecia - ou, pelo menos, o aborrecimento demorava pouco tempo!


De Luísa Schmidt, professora universitária, ambientalista.

A primeira coisa que me lembro das férias é que eram de facto muito grandes. Até certa idade, passava-as metade numa quinta do Livramento (uma aldeia ao pé de São João do Estoril) e metade noutra quinta em Alhandra. A Alhandra, que era a uns dez quilómetros de Lisboa, parecia longíssimo. Lembro-me de ir pela velha estrada nacional —pois não havia a auto-estrada— e ver o vaivém dos teleféricos da cimenteira. O meu avô tinha uma quinta com muitos cães, entre os quais um que mordia as pessoas baixas. Para evitar isso, eu tinha que andar de andas.

Entre irmãos e primos, seis rapazes e três raparigas, as brincadeiras eram sempre muito arrapazadas. Corridas pelo cimo das árvores. Jogar à pedrada, à apanhada, ao “bilas”, à malha... Tudo coisas de rapazes, mas as raparigas faziam parte da tribo... e também davam pontapés. Uma vez, no jogo da malha – um jogo onde se lançam bolachas de ferro para acertar num pau – o meu irmão partiu os dentes a uma rapariga. Nunca mais esquecemos o acidente.

Eu era a mais nova, e os meus irmãos nem sempre tinham pachorra. Por vezes fazia de filha deles. Brincávamos aos polícias e ladrões e eu servia de pretexto para rapto. Um dia tinha sido roubada e a minha irmã Teresa, que ia comigo às cavalitas, caiu e eu bati com a cabeça e desmaiei. Fui parar ao hospital... mas não foi mau. Mesmo em férias, estar doente lá em casa era de boa memória: a nossa mãe e a Zula enchiam-nos de mimos e de livros aos quadradinhos... (...)






De Jorge Vaz de Carvalho, barítono, professor

As minhas férias grandes eram aquelas férias enormes que havia nessa altura. Como a família da minha mãe era do Algarve, íamos para lá dois meses. Um mês era passado no monte, outro na Praia da Rocha. Durante o segundo mês eu estava com os amigos, mas no primeiro estava sozinho, e tinha de inventar brincadeiras. Acho que isso foi óptimo. Inventava com um cão que lá havia, chamado Pombinho. Era um cão sem raça definida – de raça mete-nojo, como se dizia – que sucedera a um outro chamado Piloto. Herdou o domínio territorial, mas de início achou um pouco estranho. Lembro-me que no segundo ano pensei que ele não me ia reconhecer, mas saltou-me para cima e fez-me uma grande festa por ter passado um mês a brincar comigo, um ano antes.

Uma das brincadeiras que fazia com ele envolvia encontrar inimigos e combatê-los. Eu juntava uma quantidade enorme de calhaus em cima do forno do pão que funcionava como a minha torre do castelo. O cão era o meu lugar-tenente. Os inimigos eram os galináceos, os patos, etc. Eles não atacavam, só levavam. Eram os inimigos perfeitos. (...)


(Textos tomados do jornal Público, 5 de Setembro de 2009)




sexta-feira, 22 de outubro de 2010

Quando eu era criança, acreditava que...


Quando somos crianças, acreditamos em muitas coisas que nos fazem rir anos depois. Como o caso desta história de bebés, cegonhas e potes de açúcar.


Tinha nove anos e acreditava que os bebés nasciam através da cegonha, isto é, como minha mãe me ensinou naquela época, dizendo que colocar um pote de açúcar na janela os bebés viriam. Queria muito ter um maninho ou maninha, então comecei a colocar todos os dias potes de açúcar na janela. Conclusão: Minha maninha mais nova está aí, e hoje com 35 anos.

Marinez, de Porto Alegre (Brasil)

Nota: mano, mana são formas familiares de irmão e irmã.

(Retirado do blogue "Quando eu era criança, eu acreditava que...")