Ouguela (Alentejo, Portugal) em baixo; Alburquerque (Badajoz, Espanha) ao fundo.

segunda-feira, 21 de maio de 2018

Samuel fala de quando ele era um miúdo

Salinas e a cidade de Aveiro ao fundo



Por volta dos meus 10 anos de idade tornei-me um miúdo estranho. A conversa da igreja do meu pai começou a entrar-me por um ouvido e a sair pelo outro; na escola primária, embora com a sorte de ter um professor fantástico, aprendia mais de História desviando-me do caminho normal para casa e passando belos pedaços de tarde com um velho sapateiro que contava as façanhas, virtudes e vergonhas de reis, rainhas, soldados e seus derivados, como se as tivesse vivido; na aldeia perto de Aveiro, em Ouca, onde por mim viveria sempre, aprendia sobre agricultura servindo de peso à grade de arar o campo de milho, vindimando, apanhando batatas (estragando muitas...); aprendia sobre o vinho pisando as uvas no lagar; aprendia sobre o pão passando noites em claro a “trabalhar” (dizia eu) na padaria do pai das minhas primas (pão para toda a aldeia e mais algum, tudo amassado à mão, forno de lenha), o grande primo António, um manancial de estórias que só paravam de desfilar de manhã... ou quando eu, depois de três dias sem dormir, “entrava em coma” em cima dos sacos de farinha; aprendia sobre ferro e fogo e tudo o mais que viesse à conversa, com o outro António, este, o senhor António, vizinho da frente da casa da aldeia, ferreiro, ferrador, um artista na forja e a “calçar” de novo juntas de bois, cavalos... e também grande “filosofador”, bastando a minha disponibilidade para accionar a alavanca do enorme fole da forja para ter conquistado a sua simpatia.

Todos suportavam estoicamente as minhas intermináveis perguntas e faziam de conta que admiravam os meus modernos e citadinos conhecimentos académicos, revistos e aumentados ano após ano.

Foi assim que aprendi a ver para lá do postal ilustrado da vida do campo e das profissões em vias de extinção. Ver o lado menos pitoresco, o lado do tremendo esforço, do sofrimento, dos bebés transportados em canastras, à cabeça, por mães operárias a caminho das fábricas de ferragens, pedalando nas suas bicicletas (que espectáculo! - dizia quem passava), do desespero das cheias do campo de Águeda (uma aventura para a garotada) que destruiam todo o milho de um ano de trabalho, do luto eterno dos pescadores da Vagueira e de Ílhavo. Foi assim que fiquei a conhecer o inferno por detrás da coisa mais bela que enfeitava o caminho que fazia para chegar à Costa Nova do Prado, as resplandecentes salinas de Aveiro, onde toneladas de mar eram transformadas em sal, que ia alimentar os porões dos barcos que partiam para a faina do bacalhau... e regressava, meses depois, impregnado nos milhares e milhares de grandes peixes que ficavam ali, esparramados a secar ao sol, em “estendais” intermináveis, Gafanha após Gafanha...

Samuel, no seu blogue Cantigueiro