Ouguela (Alentejo, Portugal) em baixo; Alburquerque (Badajoz, Espanha) ao fundo.

quinta-feira, 16 de fevereiro de 2017

"Quando era pequeno as férias eram grandes" (Anastácio Neto)



Quando era pequeno as férias eram grandes. Duravam meses. Não cabiam na mochila da escola. Agora são minúsculas. Duas ou três semanas riscadas no calendário de mesa do escritório. Agora são do tamanho de um voucher que se esconde no bolso de trás das calças.

Quando era pequeno as férias eram grandes. Íamos (eu e o meu irmão) para a aldeia natal do meu pai, perto de Vinhais, em Trás-os-Montes. A casa da minha avó era feita de pedra com sorrisos lá dentro. Primos e tias recebiam-nos de braços abertos e mãos enrugadas. O cheiro da lareira e do fumeiro perfumava a casa. Jogávamos à sueca na varanda. Rezava para que não me saísse a manilha seca. A madeira rangia sob os nossos pés. Corríamos dentro de casa, era permitido. Ouvi pela primeira vez Pink Floyd num cartucho que se encaixava na aparelhagem da sala. No telhado desse móvel encontrei um charuto dentro de uma caixa. Fumei às escondidas. Dei o meu primeiro beijo na margem do rio.

Quando era pequeno as férias eram grandes. Feitas de aventuras. Os caminhos da aldeia cheiravam à passagem de cavalos e ovelhas. Os idosos cansados, sorriam como crianças. As árvores indicavam o caminho para os terrenos de cultivo, nos quais os meus primos ensinavam o nome das coisas. Chamavam fragas às rochas. Todos os anos conhecíamos um primo novo, uma namorava diferente e um canto oculto da aldeia que parecida imensa. Bebíamos tango (7 Up com groselha). Dançávamos música pimba que na altura não se chamava pimba. Como um gelado, levávamos connosco um pouco da felicidade dos outros que se derretia pelo caminho.

Quando era pequeno as férias eram grandes. Agora são cada vez mais pequenas. A casa da avó foi restaurada. Está moderna. A madeira foi substituída por mosaico. O meu pai e a minha avó reencontraram-se noutra casa e estão felizes. Agora somos diferentes, nós os que cá ficámos. Estamos mais velhos. Menos velozes. Contentamos-nos com dias em Agosto sem vento, pequeno-almoço com fruta e dois mergulhos no mar à tarde. As aventuras cedem lugar ao merecido descanso. Optamos pelo previsível, evitamos surpresas. Somos felizes de outra forma. Depois dos quarenta também temos férias grandes mas, são mais pequenas. Feitas com pedaços de memórias colados com amor de quem, neste agora, sempre esteve connosco e nos torna em seres um pouco mais felizes.

Anastácio Neto


1 comentário:

Pescador Ocasional disse...

excelente...já não há vida para descobrir surpresas