Ouguela (Alentejo, Portugal) em baixo; Alburquerque (Badajoz, Espanha) ao fundo.

quarta-feira, 2 de outubro de 2013

"Quando eu era pequena, achava que as fadas existiam..."



Parece que Luz tem muito boa memória, não acham? Ela lembra-se de montes de coisas de quando era pequena, e é mais velha do que vocês.

Alunos do 4º ano, vocês que estão mais perto da vossa infância, depois de lerem as palavras de Luz, façam um pequeno esforço e lembrem-se daquelas coisas em que acreditavam e que, evidentemente, hoje já não acreditam nelas. É a vida. Já são crescidos...


Quando eu era criança

Quando eu era pequena, achava que as fadas existiam mesmo e que as histórias que me contavam eram mesmo verdadeiras. Pensava que os anões, quando nasciam eram tão pequeninos que deviam dormir em caixas de fósforos.

Tinha também as crenças clássicas da maioria das crianças: por vezes imaginava que era adoptada mas ninguém tinha coragem de me contar e que o governo só não dava mais dinheiro a toda a gente porque era mau, já que existia uma casa que fabricava dinheiro.

Pensava que se engolisse um caroço de laranja me nasceria uma árvore na barriga e o mesmo aconteceria com uma pevide de melancia. E se engolisse pastilha elástica teria que ser operada pois ela ficaria para sempre colada no estômago.

Quando eu era pequena, tudo aquilo com que não podia brincar ou mexer a minha mãe punha em cima de um armário e eu ficava desejosa de crescer para poder tirar de lá tudo, pois achava que lá em cima estava um monte de coisas boas. Achava que se tapasse os ouvidos e falasse, ninguém me poderia ouvir e que se tapasse os olhos ninguém me conseguiria ver. Também pensava que seria adulta assim que chegasse com os pés ao chão do carro.

A minha mãe dizia que se eu comesse legumes ficaria com o cabelo mais loiro e que as cenouras evitariam que eu chegasse a usar óculos algum dia e eu acreditava. Dizia-me que se algum dia tirasse os brincos, o buraco fecharia e nunca mais os poderia pôr. Então, um dia, uma das minha bonecas perdeu um brinco e eu chorei porque agora o buraquinho da sua orelha ia fechar.

Também acreditei que tudo o que se dizia na televisão era verdade, incluindo os anúncios e não entendia como podia a minha mãe dizer que era tudo mentiras.

Quando eu tinha 4 anos, a minha mãe mostrou-me o álbum de fotografias do casamento e eu fiquei muito triste porque não tinha ido à festa. Acreditava que os meus avós já tinha nascido velhinhos e que os meus pais nunca tinham sido crianças.

Acreditava que, sempre que pedia à minha mãe para comprar uma coisa e ela respondia "depois compro", ela compraria mesmo. Achava que a Branca de Neve e o Capuchinho Vermelho eram pessoas de verdade. Acreditava que, em dia de sol e chuva, havia mesmo um casamento de viúva em algum sítio. Achava que tinha vindo num comboio de França e que havia uma senhora que me tinha ido buscar ao comboio (era a parteira...).

E hoje tenho muitas saudades de tudo o que acreditei e achei ser verdade. Ai, que felicidade poder acreditar em tudo!

Luz