Ouguela (Alentejo, Portugal) em baixo; Alburquerque (Badajoz, Espanha) ao fundo.

terça-feira, 14 de fevereiro de 2012

Namoro (Sérgio Godinho e D. Kikas)




O cantor portuense Sérgio Godinho já esteve aqui no blogue com várias canções, como Com um brilhozinho nos olhos ou Isto anda tudo ligado, em que era acompanhado por Gabriel o Pensador, um rapper brasileiro, e pelos Da Weasel, uma banda de hip hop portuguesa .

Naquela altura dissemos que Sérgio Godinho voltaria e cá esta. A música não é dele, mas de outro cantor português, Fausto. A letra é um poema intitulado "Namoro" do político e escritor angolano Viriato da Cruz, de quem damos alguns dados em baixo.




Vão ver duas versões: primeiro, numa cor diferente,  a que é cantada; a outra, um bocado mais comprida, que não sei se se corresponde com a versão original do poema, e que encontrei na net.

Sérgio Godinho canta acompanhado pelo cantor angolano Don Kikas no segundo vídeo.


NAMORO

Mandei-lhe uma carta em papel perfumado
e com letra bonita eu disse, ela tinha
um sorriso luminoso tão triste e gaiato
como o sol de Novembro brincando de artista
nas acácias floridas, na fímbria do mar.

Sua pele macia era sumaúma
sua pele macia, cheirando a rosas
seus seios laranja, laranja do Loge
eu mandei-lhe essa carta
e ela disse que não.

Mandei-lhe um cartão
que o amigo Maninho tipografou
“por ti sofre o meu coração”
num canto “sim”, noutro canto “não”
e ela o canto do “não” dobrou.

Mandei-lhe um recado pela Zefa do sete
pedindo e rogando de joelhos no chão
pela Senhora do Cabo, pela Sta. Efigénia
me desse a ventura do seu namoro
e ela disse que não.

Mandei à Vó Xica, quimbanda de fama,
a areia da marca que o seu pé deixou
para que fizesse um feitiço bem forte e seguro
e dele nascesse um amor como o meu
e o feitiço falhou.

Andei barbado, sujo e descalço
como um monangamba procuraram por mim,
não viu?, ai não viu?, não viu o Benjamim?
e perdido me deram no morro do Samba.

Para me distrair levaram-me ao baile
do Sr. Januário, mas ela lá estava
num canto a rir, contando o meu caso
às moças mais lindas do bairro operário.

Tocaram a rumba e dancei com ela
e num passo maluco voamos na sala
qual uma estrela riscando o céu
e a malta gritou: “Aí Benjamim!”.

Olhei-a nos olhos, sorriu para mim
pedi-lhe um beijo, la la la la
e ela disse que sim
e ela disse que sim.



NAMORO

Mandei-lhe uma carta em papel perfumado
e com letra bonita eu disse ela tinha
um sorrir luminoso tão quente e gaiato
como o sol de Novembro brincando
de artista nas acácias floridas,
espalhando diamantes na fímbria do mar
e dando calor ao sumo das mangas.

Sua pele macia - era sumaúma...
Sua pele macia, da cor do jambo, cheirando a rosas
sua pele macia guardava as doçuras do corpo rijo
tão rijo e tão doce - como o maboque...
Seus seios, laranjas - laranjas do Loje
seus dentes... - marfim...
Mandei-lhe essa carta
e ela disse que não.

Mandei-lhe um cartão
que o amigo Maninho tipografou:
"Por ti sofre o meu coração"
Num canto - SIM, noutro canto - NÃO
E ela o canto do NÃO dobrou

Mandei-lhe um recado pela Zefa do Sete
pedindo, rogando de joelhos no chão
pela Senhora do Cabo, pela Santa Ifigenia,
me desse a ventura do seu namoro...
E ela disse que não.

Levei à Avo Chica, quimbanda de fama,
a areia da marca que o seu pé deixou
para que fizesse um feitiço forte e seguro
que nela nascesse um amor como o meu...
E o feitiço falhou.

Esperei-a de tarde, á porta da fabrica,
ofertei-lhe um colar e um anel e um broche,
paguei-lhe doces na calçada da Missão,
ficamos num banco do largo da Estátua,
afaguei-lhe as mãos...
falei-lhe de amor... e ela disse que não.

Andei barbudo, sujo e descalço,
como um mona-ngamba.
Procuraram por mim
"-Não viu...(ai, não viu...?) não viu Benjamim?"
E perdido me deram no morro da Samba.

Para me distrair
levaram-me ao baile do Sô Januario
mas ela lá estava num canto a rir
contando o meu caso
as moças mais lindas do Bairro Operário.

Tocaram uma rumba - dancei com ela
e num passo maluco voamos na sala
qual uma estrela riscando o céu!
E a malta gritou: "Aí Benjamim !"
Olhei-a nos olhos - sorriu para mim
pedi-lhe um beijo - e ela disse que sim.


Viriato Clemente da Cruz Viriato da Cruz nasceu em Porto Amboim, Angola em 1928, faleceu em Pequim, China em 1973. 
Foi um dos mentores do Movimento dos Novos Intelectuais de Angola (1948) e da revista Mensagem (1951-1952). 
Foi membro-fundador e secretário-geral do MPLA. Dissidente deste movimento, esteve exilado em Portugal e noutros países europeus, fixando-se posteriormente na China. 
Teve grande importância no desenvolvimento da literatura angolana, caracterizando-se a sua obra pelo apego a certos valores africanos, quer quanto à temática, quer quanto à forma. A sua produção está dispersa por publicações periódicas e representada em várias antologias, das quais uma - No Reino de Caliban - reúne a sua obra poética.











Sem comentários: