Ouguela (Alentejo, Portugal) em baixo; Alburquerque (Badajoz, Espanha) ao fundo.

sexta-feira, 18 de março de 2011

Isto anda tudo ligado (Sérgio Godinho)


Sérgio Godinho é um dos maiores cantores portugueses. No seu disco O irmão do meio fez uma revisão de muitas das suas canções: novos arranjos e colaborações de óptimos cantores e bandas portugueses, brasileiros, caboverdianos...

Nesta canção,"Isto anda tudo ligado", canta acompanhado pela banda de hip-hop portuguesa Da Weasel e pelo rapper brasileiro Gabriel o Pensador.


ISTO ANDA TUDO LIGADO

Ainda não vi
a impressionante mariposa ainda não
a pretendente pesarosa ainda não
a tarde morna e vagarosa ainda não
ainda não vi as duas faces da provável solidão

Ainda não vi a bomba H
ainda não vi a de neutrões
ainda não vi os meus travões
a ver se paro antes de chegar lá

Ainda não vi
o riso que tudo desvenda ainda não
o reverendo e a reverenda ainda não
o leão ferido e a sua senda ainda não
ainda não vi a face clara da possível confusão

Ainda não vi a hora H
ainda não vi a mão em V
ainda não vi o dia D
em que a guerra final começará

Quando eu nascer para a semana
ó mana
quando eu nascer para a semana
hei-de ouvir o teu parecer
hás-de me dizer
hás-de me dizer
hás-de me dizer
se é cada coisa para seu lado
ou se isto anda tudo ligado

Ainda não vi
as artimanhas da saudade ainda não
a caravana na cidade ainda não
a incorruptibilidade ainda não
ainda não vi as duas faces da provável solidão

Ainda não vi a bomba H
ainda não vi a de neutrões
ainda não vi os meus travões
a ver se paro antes de chegar lá

Ainda não vi
o abraço à porta da taberna ainda não
a ideológica lanterna ainda não
a mão que avança para a perna ainda não
ainda não vi a face clara da possível confusão

Ainda não vi a hora H
ainda não vi a mão em V
ainda não vi o dia D
em que a guerra final começará

Quando eu nascer para a semana
ó mana
quando eu nascer para a semana
hei-de ouvir o teu parecer
hás-de me dizer
hás-de me dizer
hás-de me dizer
se é cada coisa para seu lado
ou se isto anda tudo ligado

Ainda não vi
a grossa lágrima ao espelho ainda não
o grande chefe e o seu grupelho ainda não
o azul-turquesa e o vermelho ainda não
ainda não vi as duas faces da provável solidão

Ainda não vi a bomba H
ainda não vi a de neutrões
ainda não vi os meus travões
a ver se paro antes de chegar lá
Quando eu nascer para a semana
ó mana
quando eu nascer para a semana
hei-de ouvir o teu parecer
hás-de me dizer
hás-de me dizer
hás-de me dizer
se é cada coisa para seu lado
ou se isto anda tudo ligado










Uma anedota



Primeiro, duas definições. De anedota e de asneira.  Reparem que a palavra anedota é grave em português e não esdrúxula.

Diz-nos o dicionário Priberam:

Anedota. “Breve narração de caso verídico pouco conhecido; chiste.”
Asneira. “1. Tolice, disparate. 2. Dito obsceno.”

Desta segunda palavra, temos um sinónimo em palavrão.

Vamos lá com a anedota....

Dois homens estavam a trabalhar em casa de uma velhota, e ela passava a vida a queixar-se ao patrão de que eram muito malcriados e estavam sempre a dizer asneiras. Até que ele lhes pediu para se tentarem controlar.

— Pelo menos à frente da velhota, pá. Coitadinha.
— Está prometido, patrão – assentiram.

Apenas duas horas volvidas, contudo, a senhora telefonou esbaforida a queixar-se deles. De que, ainda por cima, um deles tinha dito uma das piores, mais feias, mais canalhas, mais torpes, mais obscenas asneiras possíveis.

Quando voltaram, o patrão admoestou-os:

— Então? Vocês tinham prometido que não diziam palavrão nenhum, e afinal... Ainda por cima foram logo dizer aquele...

— Mas, patrão – respondeu um. – Nós não dissemos asneira nenhuma, juro que não. A única coisa que aconteceu foi que o Chico estava em cima do escadote a soldar um fio, e a certa altura deixou cair um pingo de solda a ferver mesmo em cima da minha mão. E eu apenas me virei para ele, e disse-lhe, muito suavemente, com toda a calma. «Ó Chico, então foste distraído ao ponto de deixares cair um pingo de solda a ferver em cima da minha mão? Olha que eu não te quero incomodar mas isso provoca uma dor algo intensa e assim um bocado como que a dar para o assaz desagradável»...


Anedota lida no livro A Palavra Mágica e outros contos, do escritor português Rui Zink. No conto que dá título ao livro o autor recorda a primeira asneira que ele disse em miúdo e o quanto custou dizê-la. Zink voltará por aqui com palavras mesmo dele.



O mundo em que vivi (Ilse Losa)




O primeiro dia da escola. A saca às costas, caminhei ao lado da minha mãe, cheia de curiosidade e de receios. O sr. Brand, o professor, distribuía sorrisos animadores aos meninos, que o fitavam com desconfiança. A barba grisalha e o colarinho engomado davam-lhe um ar de austeridade, mas os olhos alegres protestavam contra tal impressão. Começou por nos falar, e doseava serenidade com humor para afugentar os nossos medos. De todas as escolas por que passei, a de que verdadeiramente gostei foi a escola primária. Quando o sr. Brand tomou nota do meu nome ninguém se virou para mim com sorrizinhos por soar a judaico, ninguém achou estranho eu responder «Israelita» à pergunta do sr. Brand à minha religião. Fora a mãe que me recomendara: «Quando o sr. Brand te perguntar pela religião, diz-lhe que és israelita. Soa melhor do que judia». Eu não concordava, porque achava «israelita» uma palavra estranha que não parecia pertencer à minha língua e, por isso, corei de embaraço ao pronunciá-la. E quando o sr. Brand quis saber a profissão do meu pai respondi «negociante de cavalos». Coisa natural. Muitos alunos eram filhos de lavradores e conheciam o meu pai. Não me sentia envergonhada daquilo que eu e o meu pai éramos, como aconteceria mais tarde, no liceu, quando a minha mãe me recomendou que às perguntas respondesse, além de «sou israelita», que o meu pai era «comerciante».

O liceu ficava em L..., a cidade onde havia o teatro e a sinagoga. Tomávamos, manhã cedo, o comboio e, com gesto arrogante, estendíamos o passe anual ao revisor.

No primeiro dia de aulas tivemos de dizer o nosso nome e profissão do pai e a religião. Conforme recomendação da minha mãe eu disse:

- O meu pai é comerciante. Sou israelita.

Na escola primaria tudo fora natural. No liceu colegas viraram-se e olharam-me. Mais duas judias faziam parte da turma e uma delas, Hanna Berg, respondeu à pergunta com voz firme: «Sou judia». Os gestos de Hanna eram extraordinariamente vivos e comunicativos, enquanto nos seus olhos havia a expressão dessa melancolia penetrante das seculares lendas de sabedorias e flagelos.

Hanna propôs-me que a acompanhasse a uma reunião dos sionistas. E nessa tarde. em que conheci o grupo juvenil a que ela pertencia, compreendi por que razão dissera com tanta firmeza: «Sou judia».

Numa sala espaçosa vi rapazes e raparigas de blusa branca e gravata azul e, encostada a um canto, a bandeira azul e branca. Hanna saudou o grupo com «Shalom», «paz», e todos lhe responderam do mesmo modo.

Desprendeu-se do grupo um rapaz. Bateu palmas. Fez-se silêncio, e ele disse:

- Vamos começar.

Hanna indicou-me uma cadeira e segredou-me:

- É o Bertold. Repara bem nele.

Bertold: alto, de calções de camurça, expressão franca e decidida. Levantou a mão para dar sinal de começar e vi que era uma mão larga e forte. No momento em que Bertold dobrou os ombros para trás, endireitou o tronco e moveu a mão, os rapazes e as raparigas começaram a falar em coro: primeiro um murmúrio crescente, depois vozes altas, vigorosas, que pareciam vir duma grande massa de gente. Diziam de injustiças, de orgulho, de expectativa duma vida livre em Israel. Como um chefe de orquestra, Bertold regia-os. Juntava as mãos em concha para em seguida as erguer num movimento rápido: as vozes elevavam-se; abria os braços como quem pedia para recuarem: as vozes baixavam; rasgava o ar com as mãos: as vozes emudeciam. As frases esperançosas, a convicção com que eram ditas, isso impressionava-me fortemente. Concluí que aniquilaram todas as dúvidas e resignação dos velhos, que encontraram rumos novos. «Devemos ter orgulho por sermos judeus», diziam os velhos, mas na verdade procuravam apenas consolo. Esses jovens, porém, esses sim orgulhavam-se deveras.

Depois das declamações começaram a dançar a «horra». Deitando os braços pelos ombros uns dos outros formavam um círculo, rodavam para a esquerda sempre para a esquerda, alegres e entusiásticos. Cantaram a comunicativa melodia da «hatikwah», a canção da «esperança».

Excitada, falei em casa da reunião. Tencionava voltar lá para aprender a falar em coro, dançar a «horra» e cantar a «hatikwah». Mas tanto o meu pai como a minha mãe acharam que não, que isso não me servia. Só me meteria na cabeça a emigração para a Palestina e eu, como boa alemã, não devia abandonar a pátria a que pertencia.

Quando falei ao sr. Heim, sorriu um tanto triste:

- Repara, Rose, o meu rapaz também anda com os sionistas e por isso há discórdia em casa. Ele e a mãe quase que não se falam

Excerto do livro de Ilse Losa, O mundo em que vivi (1949)




Ilse Lieblich Losa (nascida Ilse Lieblich, Melle-Buer, 20 de Março de 1913 — Porto, 6 de Janeiro de 2006) foi uma escritora portuguesa de origem judaica.

Nascida na Alemanha, frequentou o liceu em Osnabrück e Hildesheim e mais tarde um instituto comercial em Hannover.

Ameaçada pela Gestapo de ser enviada para um campo de concentração devido à sua origem judaica, abandonou o seu país natal em 1930. Deslocou-se primeiro para Inglaterra onde teve os primeiros contactos com escolas infantis e com os problemas das crianças. Chegou a Portugal em 1934, tendo-se fixado na cidade do Porto, onde casou com o arquitecto Arménio Taveira Losa, tendo adquirido a nacionalidade portuguesa. Em 1943, publicou o seu primeiro livro, O mundo em que vivi, e desde essa altura, dedicou a sua vida à tradução e à literatura infanto-juvenil, tendo sido galardoada em 1984 com o Grande Prémio Gulbenkian para o conjunto da sua obra dirigida às crianças.


quinta-feira, 17 de março de 2011

Rodopiando no Sambódromo do Rio






É verdade que o Carnaval já passou, mas gostei destas fotografias de Miguel Enrique Murgas em que não falta movimento. E cores também não faltam, pois não? Foram tiradas no Sambódromo do Rio de Janeiro.



"quando o melaço" (Arlindo Barbeitos)



quando o melaço
escorre pelas pontas sem forma
quando o aroma do mel quente atrai as abelhas
quando as manchas pretas
no fundo amarelo
lembram o leopardo

então
come-se a banana devagarinho
lambendo os dedos depois

Arlindo Barbeitos


Arlindo Barbeitos é um poeta angolano. A sua poesia tem reminiscências da poética tradicional africana, de tradição oral, e das poesias chinesa e japonesa.

Nota. O melaço é resultante da etapa de centrifugação ou de decantação, no processo de fabricação de açúcar (em espanhol é "melaza").



terça-feira, 15 de março de 2011

Os 3 erres: Redução - Reutilização - Reciclagem



No que diz respeito à reciclagem, Portugal vai à frente do nosso país. Vejam, senão, quantos são os contentores que ali têm:

Papelão: Recipiente destinado ao depósito ou à recolha de papel, para posterior reciclagem.

Embalão: Recipiente destinado ao depósito ou à recolha de embalagens, sacos de plástico, metais ou afins, para posterior reciclagem

Vidrão: Recipiente destinado ao depósito ou à recolha de vidro (partido ou fora de uso) para posterior reciclagem.

Pilhão: Recipiente destinado ao depósito ou à recolha de vidro (partido ou fora de uso) para posterior reciclagem.

Oleão: Recipiente destinado ao depósito ou à recolha de óleos usados, para posterior reciclagem.

Rolhão: Recipiente destinado ao depósito ou à recolha de rolhas ou outros objectos de cortiça, para posterior reciclagem.

Livrão: o recipiente onde pode depositar os livros escolares para que voltem a servir a sua função e contribuir assim, de uma forma solidária, para ajudar quem quer continuar a estudar.

Electrão: Recipiente destinado ao depósito ou à recolha de pequenos equipamentos eléctricos/elétricos fora de uso, para posterior reciclagem.



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segunda-feira, 14 de março de 2011

Tomar: isto é que é uma janela






Esta é a famosa janela manuelina do Convento de Cristo, na cidade de Tomar, que fica no Centro de Portugal, no Distrito de Santarém.

O que é o estilo manuelino?


sexta-feira, 11 de março de 2011

Mi Ma Bô (Sara Tavares)


Sara Tavares nasceu em Lisboa, filha de pais caboverdianos. "Portuguesa e caboverdiana ao mesmo tempo, mas com o coração no mundo", podemos ler na sua página. Aqui canta ao vivo em 2009 na cidade norte-americana de Washington.


Mi Ma Bô (bô Ma Mi)

Um paixão ta nascê, ta começa
um amor ta raiá, ta conquista

ta nascê, ta começa
ta raiá, ta conquista

(refrão)
mi ma bô, bô ma mi
nôs ta voá
mi ma bô, bô ma mi
nôs ta sonha

bô é tudo, qui'm crê, bô é nha luz
nha coração ta batê forti pa bô

(refrão)


Como a própria vida


A etiqueta diz "Humor", mas isto não é piada nenhuma. Acontece na própria vida, não acontece?

Diálogos curtos e esclarecedores

- Amanhã, antes de abalarmos, temos de ir ao pão, à lavandaria e passear o cão. Qual destas tarefas queres para ti?

- Nenhuma. 


Lido no blogue Assobio Rebelde.

Nota. abalar = intr. Ir-se embora sem prevenir.

A evolução de um sábio



O sábio sabe, sim, mas também duvida, e muito, faz-se perguntas, e pensa. Quem julga saber tudo, não é sábio nenhum.