Ouguela (Alentejo, Portugal) em baixo; Alburquerque (Badajoz, Espanha) ao fundo.

terça-feira, 10 de fevereiro de 2015

Vamos escrever uma carta de amor



Uma proposta de trabalho para esta semana: vão escrever uma carta de amor,  não um mail, não um WhatsApp, mas uma carta mesmo, como se fazia antigamente, e cá temos uma ajuda do imenso poeta português Fernando Pessoa, que era vários poetas: Fernando Pessoa, Alberto Caeiro, Ricardo Reis, Álvaro de Campos... São os seus  heterónimos. E há mais autores, mas vamos ficar por aqui. Ele era toda uma literatura, e escrevia em inglês também, porque se educou nesta língua na África do Sul.

Um dos últimos poemas que escreveu (como Álvaro de Campos, um dos seus heterónimos) foi este: "Todas as cartas de amor / São ridículas..." Vejam lá, não tenham medo se acham as vossas palavras "ridículas". Vamos ler os versos e saber porquê.





Todas as cartas de amor são
Ridículas.
Não seriam cartas de amor se não fossem
Ridículas.

Também escrevi em meu tempo cartas de amor,
Como as outras,
Ridículas.

As cartas de amor, se há amor,
Têm de ser
Ridículas.

Mas, afinal,
Só as criaturas que nunca escreveram
Cartas de amor
É que são
Ridículas.

Quem me dera no tempo em que escrevia
Sem dar por isso
Cartas de amor
Ridículas.

A verdade é que hoje
As minhas memórias
Dessas cartas de amor
É que são
Ridículas.

(Todas as palavras esdrúxulas,
Como os sentimentos esdrúxulos,
São naturalmente
Ridículas.)



Fernando Pessoa / Álvaro de Campos





Eis uma das cartas que Fernando Pessoa escreveu a Ofélia Queirós a 25 de setembro de 1919, na segunda fase do seu namoro (reparem quem assina a carta: o heterónimo Álvaro de Campos):


Um abjeto e miserável indivíduo chamado Fernando Pessoa, meu particular e querido amigo, encarregou-me de comunicar a V. Exa. – considerando que o estado atual dele o impede de comunicar qualquer coisa mesmo a uma ervilha seca (exemplo de obediência e de disciplina) − que V. Exa. está proibida de:

1 – Pesar mais gramas

2 – Comer pouco

3 – Não dormir nada

4 – Ter febre

5 – Pensar no indivíduo em questão

Pela minha parte, e como íntimo e sincero amigo que sou do meliante, cuja comunicação (com sacrifício) me encarrego, aconselho V. Exa. a pegar na imagem mental que acaso tenha formado do indivíduo, cuja citação está estragando esse papel razoavelmente branco, e deitar essa imagem mental na pia, por ser materialmente impossível dar esse justo Destino à entidade fingidamente humana a quem ele competiria, se houvesse justiça no mundo.

Cumprimento a V. Exa.,

Álvaro de Campos,
Engenheiro Naval.






Casa Fernando Pessoa