Ouguela (Alentejo, Portugal) em baixo; Alburquerque (Badajoz, Espanha) ao fundo.

quinta-feira, 13 de junho de 2013

Todas as cartas de amor são ridículas (Fernando Pessoa)



Este poema já foi publicado no blogue há dois anos, mas podemos voltar a ler, e desta vez, escutar também. É um dos melhores poemas de Fernando Pessoa, que era um poeta e era muitos poetas ao mesmo tempo.

Lembram-se dos heterónimos dele? Vejam a mensagem anterior ou, banda desenhada feita com uns versos de Alberto Caeiro, um dos principais heterónimos: "Hoje de manhã saí muito cedo", que vimos no mês de maio.

O autor de "Todas as cartas de amor são ridículas" é o heterónimo Álvaro de Campos.

«Álvaro de Campos nasceu em Tavira,no dia 15 de Outubro de 1890, é engenheiro naval(por Glasgow), é alto (1,75 de altura), magro, cara rapada, cabelo liso. (…) pus em Álvaro de Campos toda a emoção que não dou nem a mim nem à minha vida.»  De uma carta de Fernando Pessoa.

Todas as cartas de amor são
Ridículas.
Não seriam cartas de amor se não fossem
Ridículas.

Também escrevi em meu tempo cartas de amor,
Como as outras,
Ridículas.

As cartas de amor, se há amor,
Têm de ser
Ridículas.

Mas, afinal,
Só as criaturas que nunca escreveram
Cartas de amor
É que são
Ridículas.

Quem me dera no tempo em que escrevia
Sem dar por isso
Cartas de amor
Ridículas.

A verdade é que hoje
As minhas memórias
Dessas cartas de amor
É que são
Ridículas.

(Todas as palavras esdrúxulas,
Como os sentimentos esdrúxulos,
São naturalmente
Ridículas.)

Álvaro de Campos, 21/10/1935


 Álvaro de Campos por Almada Negreiros


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